O Mês Vocacional, celebrado tradicionalmente em agosto, coloca toda a Igreja em um movimento de oração, escuta e discernimento. É um tempo favorável para bendizer ao Senhor pelos muitos chamados, mas também para olhar de frente e sem rodeios para a realidade concreta daqueles que responderam a essa voz. Em especial, a atenção se volta aos padres jovens e recém-ordenados, uma geração que abraça o presbitério em um mundo marcado por rápidas transformações, onde o ardor do primeiro "sim" divide espaço com as complexidades da vida contemporânea.
A chegada de um novo sacerdote a uma comunidade traz um sopro de vitalidade e esperança. O jovem padre traz no peito o entusiasmo de quem acabou de selar a sua vida ao altar: planos pastorais, desejo de proximidade com a juventude, zelo litúrgico e a sede de doar-se sem reservas ao Reino de Deus. No entanto, a transição do ambiente protegido do seminário para a rotina diária das paróquias pode se revelar um verdadeiro choque de realidade. O sacerdote recém-ordenado frequentemente se vê imerso em uma carga pesada de responsabilidades administrativas, expectativas irrealistas da comunidade e o desafio de dialogar com uma sociedade cada vez mais secularizada.
Falar de juventude sacerdotal hoje exige falar também sobre a crise vocacional. Essa crise não se resume apenas à diminuição numérica das vocações ao presbitério em diversas partes do mundo; trata-se de algo mais profundo. É a crise do "para sempre" em uma cultura do provisório; a dificuldade da renúncia e da entrega radical em tempos marcados pelo individualismo. O Papa Francisco insistia que as vocações não nascem de estratégias de marketing ou ativismo pastoral, mas do testemunho alegre e da cultura do encontro. Para o jovem padre, ser fiel ao seu chamado exige sustentar a fé em meio a questionamentos internos e externos, descobrindo que a maturidade vocacional se consolida na provação e na humildade de pedir ajuda quando necessário.
A cultura do "fazer tudo sozinho" é perigosa no ministério. Para o padre jovem, a fraternidade sacerdotal e o acompanhamento espiritual não são luxos, mas necessidades vitais de sobrevivência espiritual e humana. No exercício pleno do ministério, o padre recém ordenado deve recordar que sua atuação é embasada em seu vínculo mais profundo com a Igreja, o qual se dá, primeiramente, com os Bispos, dos quais se espera uma relação de paternidade verdadeira, diálogo sincero e acolhimento sem medos; com os Presbíteros mais experientes, nos quais se espera encontrar uma ponte entre gerações, onde a sabedoria dos mais velhos acolhe a energia dos mais jovens, criando um ambiente de apoio mútuo; com os Leigos, vendo na relação com estes a cooperação saudável e corresponsável, sem o peso do clericalismo ou da centralização.
Ademais, ao olhar para o Mês Vocacional com verdadeira sensibilidade pastoral, a Igreja não pode fechar os olhos para as feridas mais dolorosas do seu corpo presbiteral. Não podemos concluir esta reflexão sem abordar com profundo afeto e dor a realidade triste daqueles sacerdotes, muitos deles jovens, que, sufocados por dores invisíveis, pelo cansaço extremo, pela solidão avassaladora ou por batalhas mentais e emocionais profundas, chegaram ao ponto limite de tirar a própria vida. A esses nossos irmãos que se foram desta forma tão dolorosa, prestamos hoje uma sincera, humilde e respeitosa homenagem; reconhecemos a beleza do bem que realizaram, os sacramentos que ministraram, as palavras de conforto que ofereceram e as vidas que abençoaram enquanto estiveram entre nós. Suas dores não anulam o amor com que serviram.
Voltamos também os olhos e o coração, de maneira fraterna, às suas famílias, amigos e comunidades paroquiais que hoje choram a saudade e o peso do enigma dessa perda. A eles estendemos a nossa solidariedade e o nosso abraço de fé: não estão sós na sua dor. A misericórdia de Deus é infinitamente maior do que as nossas fraquezas e desespero; confiamos esses nossos irmãos ao Coração Misericordioso de Jesus, que acolhe a todos com infinita compaixão.
Quero, de maneira singular, pedir a Deus que abençoe a todos os padres, especialmente, os das amadas Dioceses de Toledo e Maringá. Recebam meu abraço fraterno e a minha gratidão pelo seu sim no ministério da reconciliação. Que nossos sacerdotes sejam arautos da misericórdia!
Que este Mês Vocacional seja um divisor de águas na forma como olhamos e cuidamos dos nossos sacerdotes. Rezar pelas vocações é também cuidar das vocações que já existem. Que cada comunidade saiba ser abrigo, que cada presbitério seja uma verdadeira família, e que nenhum padre jovem ou idoso precise carregar sozinho o peso de suas dores. Que Nossa Senhora, Mãe dos Aflitos e Mãe dos Sacerdotes, envolva a todos com o seu manto de consolação e esperança.
+ Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR

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