Como preparar o coração para o encontro que não escolhemos a hora
São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 1,
versículos 17 a 25, é direto e até incômodo. Ele diz que a pregação da cruz é
uma insensatez para os que se perdem, mas para os que se salvam é poder de
Deus. O apóstolo não está fazendo um discurso filosófico elegante. Está
afirmando algo que continua desafiando a lógica humana até hoje, que a força de
Deus se manifesta justamente onde o mundo vê fraqueza, e a sabedoria de Deus
aparece onde os sábios do mundo veem loucura. Paulo escreve isso a uma comunidade
que vivia em Corinto, cidade orgulhosa de sua cultura, de sua retórica, de seus
filósofos. E ali, no meio de tanta sofisticação intelectual, ele escolhe pregar
um homem crucificado como salvador do mundo. Isso era, literalmente, um
escândalo.
Ainda hoje, muitos de nós vivemos essa mesma tensão. Nossa
cultura valoriza o sucesso visível, a eficiência, os resultados imediatos, a
imagem de força e controle. E a fé cristã, no entanto, nos ensina que a
verdadeira grandeza muitas vezes se esconde na entrega, no serviço silencioso,
na humildade de quem não precisa provar nada a ninguém. Quantas vezes, em
nossos ambientes de trabalho, em nossas famílias, sentimos a pressão de
aparentar força quando por dentro estamos fragilizados? A cruz de Cristo nos ensina
algo revolucionário, que não há vergonha em reconhecer a própria fraqueza
diante de Deus, porque é justamente ali que ele manifesta o seu poder.
O salmo responsorial, tirado do Salmo 32, complementa essa
reflexão com uma imagem de confiança e alegria. Diz o salmista que Deus ama o
direito e a justiça, e que os desígnios do Senhor são para sempre. Ainda que os
planos das nações se desfaçam, ainda que os projetos humanos falhem, a
fidelidade de Deus permanece. Essa certeza é o fundamento que nos permite viver
sem o medo paralisante do futuro.
E é justamente sobre o futuro, e sobre como nos preparamos para
ele, que o Evangelho de Mateus, no capítulo 25, versículos 1 a 13, nos fala com
a parábola das dez jovens. Cinco eram previdentes e levaram óleo suficiente
para suas lâmpadas. Cinco foram imprevidentes e não se prepararam. Quando o
noivo chegou, de madrugada, as primeiras estavam prontas para entrar na festa.
As outras, correndo atrás de uma solução de última hora, encontraram a porta já
fechada.
Essa parábola não fala de um Deus que pune por capricho, nem de
uma porta fechada por crueldade. Fala de uma realidade simples e honesta sobre
a vida espiritual, que ela não pode ser improvisada no último instante. O óleo
das lâmpadas representa aquilo que alimenta nossa fé no dia a dia, a oração
constante, a caridade praticada, a coerência entre o que cremos e o que
vivemos. Não é possível pedir emprestada, na última hora, uma vida de fé que
não foi cultivada ao longo do tempo. Cada pessoa precisa do próprio óleo,
construído na fidelidade cotidiana.
Aqui penso em você, que administra tantas responsabilidades, que
lidera equipes, que cuida de pessoas e de processos, e que muitas vezes
posterga o cuidado com a própria vida interior para depois, para quando houver
tempo. A parábola de hoje nos alerta com ternura, mas também com firmeza, que
esse tempo de preparação é agora. Não sabemos o dia nem a hora do nosso
encontro definitivo com o Senhor, seja ele qual for, e por isso a vigilância
não pode ser adiada indefinidamente.
Santo Agostinho, cuja memória a Igreja celebra hoje, viveu de
forma intensa essa busca. Foi um homem de grande inteligência, que por muito
tempo procurou a verdade nos caminhos da filosofia e dos prazeres do mundo, até
compreender, como ele mesmo escreveu, que o coração humano permanece inquieto
até descansar em Deus. Sua vida é um testemunho vivo de que nunca é tarde para
acender a lâmpada, para reabastecer o óleo, para se converter e caminhar com
sabedoria.
Termino com um convite simples e sincero. Olhe hoje para sua
própria lâmpada. Ela está com óleo suficiente? Sua vida de oração, sua caridade
concreta, sua coerência com o Evangelho, têm sido alimentadas com regularidade,
ou você tem vivido de empréstimos espirituais, de emoções passageiras que se
apagam rápido? Não é preciso viver com angústia, mas com vigilância serena,
sabendo que o Senhor que vem ao nosso encontro é o mesmo que nos ama e que
deseja nos encontrar preparados para a festa.
Que a sabedoria da cruz, que parece loucura ao mundo, seja para
nós fonte de força. E que, como Santo Agostinho, saibamos converter nossa
inquietação em busca sincera daquele que é a nossa verdadeira paz.
Caminhai no Senhor.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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