Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de novembro, 2025

Quem sou eu

Minha foto
Dom Anuar Batisti
Formado em filosofia no Paraná e em teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, Dom Anuar Battisti é Arcebispo Emérito de Maringá (PR). Em 15 de abril de 1998, por escolha do papa João Paulo II, foi nomeado bispo diocesano de Toledo, sendo empossado no mesmo dia da ordenação episcopal, em 20 de junho daquele ano. Em 2009 recebeu o título de Doutor Honoris Causa, um dos mais importantes, concedidos pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Em 2007, foi presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Sagrada, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 2015, foi membro do Conselho Administrativo da Pastoral da Criança Internacional e, ainda na CNBB, foi delegado suplente. No Conselho Episcopal Latino-Americano atuou como Presidente do Departamento das Vocações e Ministérios, até 2019.

Mateus, o Cobrador que Virou Evangelista: O Gesto de Deixar Tudo e Partilhar

  Queridos filhos e filhas, O calendário da Igreja é a cadência do nosso coração. Com a chegada do Advento, viramos uma página importante na nossa fé. Deixamos para trás o Ano C, guiados pelo evangelista Lucas, o doutor da misericórdia, para nos encontrarmos com São Mateus, o companheiro que nos conduzirá através de todo o Ano Litúrgico A. Eu gosto muito de meditar sobre a história pessoal deste nosso novo guia. Antes de ser Mateus, ele era Levi. Um homem que tinha sua vida resolvida, sentado na sua banca de cobrança de impostos (cf. Mt 9,9). Sua preocupação era o cálculo, o dinheiro, o ter. Ele estava no centro do seu próprio mundo, mas, talvez, vazio por dentro. E então, Jesus passou. Ele não parou para condenar Levi por sua profissão. Não fez um sermão sobre a justiça dos impostos. Apenas pousou sobre ele o olhar de amor. Um olhar que via não o cobrador, mas o potencial de santo . E disse apenas duas palavras: "Segue-me". Este é o poder da conversão. Mateus se leva...

O SIGNIFICADO DO ADVENTO

  O Advento marca o início do ano litúrgico e cria um clima espiritual único na vida da Igreja. Esse tempo desperta a consciência de que a fé cristã não vive da repetição, mas da expectativa viva: Cristo vem, e cada fiel precisa decidir de que forma deseja recebê-lo. O Advento funciona como uma porta aberta. Quem atravessa essa porta entra em um período de lucidez, exame interior e esperança concreta. Esse tempo litúrgico gira em torno de duas grandes chegadas de Cristo. A primeira aponta para o futuro: a vinda gloriosa do Senhor no fim dos tempos. A liturgia proclama essa verdade logo nas primeiras semanas e exige atitude firme: “Ficai preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que menos pensais” (Mt 24,44). O Advento não permite acomodação. Ele corta o excesso de pressa, rompe a distração e chama o coração de volta ao essencial. Cristo caminha em direção ao seu povo, e cada pessoa escolhe entre vigilância e indiferença. A segunda chegada dirige o olhar para o Natal....

1º Domingo do Advento

  Ao iniciarmos o Tempo do Advento, ajustemos o coração para acolher Aquele que vem. A primeira leitura, do profeta Isaías – Is 2,1-5 –, apresenta uma visão que exige decisão : “Acontecerá, nos últimos tempos, que o monte da casa do Senhor estará firme no alto das montanhas… para ele afluirão todas as nações” (Is 2,1-2). Isaías convoca cada povo a subir ao monte do Senhor e a aprender seus caminhos. Ele não descreve espectadores, mas pessoas que tomam a iniciativa de se mover em direção a Deus. O profeta anuncia ainda a grande transformação que nasce dessa escolha: “ De suas espadas forjarão arados, e de suas lanças farão podadeiras ” (Is 2,4). Quem caminha na luz abandona a lógica da violência e acolhe a paz. Com firmeza, Isaías conclui: “Vinde, casa de Jacó! Caminhemos à luz do Senhor!” (Is 2,5). O Advento exige exatamente isso: levantar-se, escolher a luz e iniciar o caminho. O salmo reforça essa disposição interior : “Que alegria quando me disseram: Vamos à casa do Senh...

Ação de Graças: O Dom de Cuidar e a Missão do Amor

  Neste dia em que o calendário nos aponta o Dia de Ação de Graças de 2025, meu coração de pastor se volta para uma dimensão muitas vezes silenciosa, mas essencial da nossa existência: o dom da saúde e a bênção daqueles que dedicam suas vidas a preservá-la. Se, por um lado, a tradição desta data nos remete à colheita e aos frutos da terra, eu proponho que olhemos hoje para uma colheita diferente, humana e sagrada: a recuperação da vida, o alívio da dor e o consolo na enfermidade. Quando percorro os corredores dos hospitais, vejo ali verdadeiros santuários. Não são templos de pedra, mas templos de carne e osso, onde o Cristo sofredor aguarda nossa visita e nosso cuidado. Por isso, a minha Ação de Graças hoje se dirige a Deus pela existência da filantropia na saúde. Este termo grego, "filantropia", traduz-se como "amor à humanidade". E não existe forma mais concreta de amar a humanidade do que debruçar-se sobre o leito de quem sofre, sem perguntar se aquela pessoa pod...

HOMILIA – SOLENIDADE DE CRISTO REI DO UNIVERSO – ANO C

  Meus irmãos e minhas irmãs, ao concluirmos o Ano Litúrgico, a Igreja nos reúne para contemplar e adorar Aquele que é o sentido de todas as coisas: Jesus Cristo, Rei do Universo. Mas é importante reconhecer desde o início que a realeza de Cristo não se apoia na força, em privilégios ou em honras humanas. O Evangelho deste domingo nos apresenta um Cristo que reina de modo desconcertante: pregado numa cruz, humilhado e insultado, mas oferecendo ali mesmo o amor mais poderoso que o mundo já viu. A liturgia nos convida a purificar a nossa visão de Deus e permitir que Cristo reine verdadeiramente em nossas vidas, nas nossas comunidades e na sociedade. A primeira leitura apresenta um momento decisivo da história de Israel: todas as tribos se reúnem em Hebron para aclamar Davi como rei (2Sm 5,1-3). Elas reconhecem que Davi era “osso e carne” do povo, aquele que caminhava com eles, que sofria com eles e que os conduzia. Este reconhecimento da proximidade do rei com seu povo antecipa o q...

O Reinado da Simplicidade: O Leigo como o Sal na Panela do Mundo e o Fermento na Massa da História

  Caríssimos irmãos e irmãs no Senhor, A graça e a paz de Deus estejam convosco. Chegamos ao ponto alto e final do nosso ano litúrgico, quando celebramos a majestosa Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. É um momento de glória e de profunda reflexão, pois junto a esta festa, celebramos o Dia Nacional dos Leigos e Leigas. Esta união não é por acaso: o Reinado de Cristo não se constrói em palácios, mas no coração e nas mãos de cada batizado que assume sua vocação no mundo. O nosso Rei é o Servo, Aquele que escolheu lavar os pés dos discípulos (cf. Jo 13, 1-17), e que usou a Cruz como trono. O seu Reinado é um reinado de amor, serviço e verdade, e este reinado é delegado a vocês, leigos, que são a vasta maioria do Povo de Deus, a presença viva da Igreja no meio do mundo. I. O Leigo: Fermento Escondido e Sal no Cotidiano A vocação laical, meus irmãos, é linda por sua simplicidade e radicalidade. Não se trata de uma vocação "secundária", como se o lei...

O Olhar de Mãe que Vê o Pobre: Do Evangelho à Pastoral

  Queridos filhos e filhas, amados irmãos em Cristo, Com o coração de pastor, dirijo-me a vós por ocasião do Dia Mundial dos Pobres. Esta data, instituída pelo nosso amado Papa Francisco, de venerável memória, ressoa hoje com nova força sob a exortação do nosso Santo Padre, o Papa Leão XIV, que nos conclama a não apenas "ver" o pobre, mas a "tocá-lo" e a "cuidar" dele com a eficácia do amor. Ao meditar sobre este dia, meus pensamentos não vão primeiro para as grandes teorias sociológicas ou para os números complexos da economia. Meu coração se volta para uma cena simples do Evangelho: as Bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-11). Eu gosto de pensar que, naquela festa, muitas pessoas importantes estavam presentes. Os noivos, os convidados, os mestres de cerimônia, e até mesmo Jesus e seus discípulos. Mas, no meio da festa, algo começou a faltar. O vinho, sinal da alegria, estava acabando. Quem percebeu? Quem foi o primeiro a notar a "pobreza" que se in...

Jesus nos oferece o céu! Sejamos misericordiosos!

       Quase no final do ano litúrgico, a Palavra de Deus convida-nos a lançar um olhar sobre a história dos homens e sobre aquilo que nos espera quando o nosso caminho na terra terminar. Garante-nos que caminhamos ao encontro de Deus, da vida verdadeira. A história dos homens não é uma história de perdição, mas sim uma história de salvação. É tendo diante dos olhos esse horizonte que enfrentamos a vida de todos os dias e derrotamos as dificuldades que o caminho apresenta. Na primeira leitura – Ml 3,19-20 – , um “enviado de Deus” anuncia a uma comunidade desanimada que, ao contrário do que dizem alguns céticos, Javé não abandonou o seu Povo nem deixou o mal assumir as rédeas da história dos homens. No tempo oportuno Deus vai atuar, vai limpar o mundo, vai derrotar as forças da opressão e da morte que privam os homens de vida. Das cinzas do mundo velho Deus vai fazer nascer um mundo novo, iluminado pela luz da salvação. Diante da prosperidade dos ímpios, surge ...

Homilia – Dedicação da Basílica de Latrão – Ano C

                                                     Sejamos templos vivos do Senhor Ressuscitado! Irmãos e irmãs, Neste segundo domingo de novembro – dia 09 de novembro precisamente – a Igreja celebra uma festa muito especial: a Dedicação da Basílica de São João de Latrão, a Catedral do Papa, Bispo de Roma. Ela é chamada de “mãe e cabeça de todas as igrejas da cidade e do mundo”, porque é o símbolo visível da comunhão de todas as comunidades cristãs com o sucessor de Pedro. Celebrar esta festa é renovar nossa unidade com o Papa e nossa consciência de que somos pedras vivas do edifício espiritual que é a Igreja de Cristo. Na primeira leitura, o profeta Ezequiel – Ez 47,1-2.8-9.12 – tem uma visão admirável: “Vi sair água do limiar do Templo” (Ez 47,1), e essa água corria em direção ao deserto, levando vida por onde passava. Essa imagem...

Sejamos pedras vivas de Cristo Ressuscitado!

  A Basílica de S. João de Latrão é a Catedral do Papa, enquanto Bispo de Roma. Construída pelo imperador Constantino, no tempo do Papa Silvestre I, foi consagrada no ano 324. Ela é chamada “a igreja-mãe de todas as igrejas da Urbe e do Orbe”; e é o símbolo das Igrejas de todo o mundo, unidas à volta do sucessor de Pedro. A Festa da Dedicação da Basílica de Latrão convida-nos a tomar consciência de que a Igreja nascida de Jesus (que a Basílica de São João de Latrão simboliza e representa) é hoje, no meio do mundo, a “morada de Deus”, o testemunho vivo da presença de Deus na caminhada histórica dos homens. Na primeira leitura Ez 47,1-2.8-9.12 –, o profeta Ezequiel anuncia aos exilados na Babilônia que Deus vai fixar definitivamente a sua morada no meio do Seu Povo. Da “casa de Deus” brotará um rio de água viva e abundante que se derramará sobre toda a terra de Israel. Essa água irá fecundar o deserto, fazer com que nasçam árvores de toda a espécie, carregadas de frutos comestíveis e...

Nós cremos na vida eterna!

  Para onde caminhamos? Onde estão as pessoas que nos são queridas e que já terminaram o seu caminho aqui na terra? A liturgia da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos convida-nos a ver em Deus a nossa meta, o nosso horizonte final. Não, não estamos condenados a dissolver-nos no nada, a terminar a nossa vida numa escuridão sem esperança nem sentido; estamos destinados a encontrar-nos com Deus, a viver em comunhão plena com Ele, a desfrutar de uma vida nova e eterna nos braços de um Pai que nos ama infinitamente — a experimentar uma felicidade que as nossas pobres palavras humanas jamais conseguirão descrever. A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos ensina-nos a proclamar com firmeza a nossa fé no Mistério Pascal. Rezamos com esperança pela passagem da morte à vida daqueles que já faleceram e que foram marcados, no Batismo, com o sinal do Crucificado-Ressuscitado. A primeira leitura – Jó 19,1.23-27a – apresenta-nos o caso de Jó, o protótipo do justo que sofre sem motivo ne...

Homilia – Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos – Ano C

  Eu sou a Ressurreição e a Vida, quem crê em mim viverá eternamente, diz Jesus! Queridos irmãos e irmãs, hoje a Igreja, mãe amorosa, volta o olhar e o coração para todos os seus filhos e filhas falecidos. Depois de termos celebrado ontem a glória dos santos no céu, na manhã do sábado dia 01 de novembro de 2025, neste domingo dia 02 de novembro, voltamo-nos agora para os fiéis defuntos, aqueles que nos precederam na fé e aguardam, na misericórdia de Deus, a plenitude da vida eterna. Não celebramos a morte como um fim, mas como passagem para o encontro definitivo com Deus, que é amor e vida. É uma celebração marcada pela saudade, sim, mas também pela esperança que nasce da fé em Cristo ressuscitado, vencedor da morte. A primeira leitura, do Livro da Sabedoria (Sb 3,1-9), nos traz uma das mais consoladoras verdades da Sagrada Escritura: “As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá.” Aos olhos dos insensatos, pareceu que os justos haviam morrido, “mas...

A santidade é possível! Sejamos santos! Vivamos a santidade no cotidiano!

  Celebramos, de maneira extraordinária neste ano de 2025, a Solenidade de Todos os Santos, na manhã do sábado dia 01 de novembro, considerando que o Domingo, sendo dia 02 de novembro, obrigatoriamente deverá ser celebrada a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Na primeira leitura – Ap 7,2-4.9-14 – o autor sagrado descreve a felicidade dos mártires e dos santos na sua condição celeste, invisível. Para isso, o profeta recorre a uma visão. As primeiras perseguições tinham feito cruéis destruições nas comunidades cristãs, ainda tão jovens. Iriam estas comunidades desaparecer, acabadas de fundar? As visões do profeta cristão trazem uma mensagem de esperança nesta provação. É uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilônia. A revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro. Que paradoxo! O próprio Cordeiro foi imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado. Ele transformou o ca...