Ao raiar do primeiro dia de 2026, a Igreja não nos convida a olhar para as oscilações da economia ou para as previsões políticas. A Liturgia, em sua sabedoria materna, nos faz olhar para uma mulher com uma criança nos braços. Celebramos, na Oitava do Natal, a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Começamos o ano civil sob a proteção daquela que gerou o Autor da Vida e, consequentemente, gerou a própria esperança.
Neste
mesmo dia, a Igreja celebra o Dia Mundial da Paz. E é sobre essa paz — não a
paz dos cemitérios, nem a paz armada, mas a paz de Cristo — que sinto a
urgência de falar ao coração de cada fiel católico e de cada pessoa de boa
vontade.
Entramos
em 2026, um ano que trará, inevitavelmente, o calor dos debates públicos e das
escolhas políticas em nosso país. Contudo, trago um apelo que nasce do
Evangelho: que este não seja um ano de divisões, mas de reencontro.
Nos
últimos tempos, vimos uma ferida aberta no tecido de nossa sociedade e,
dolorosamente, até dentro de nossas comunidades e famílias. Vimos a polarização
política tentar sequestrar a fé. Vimos irmãos de caminhada, que partilham do
mesmo Cálice e do mesmo Pão na Eucaristia, olharem-se como inimigos por causa
de divergências ideológicas.
Isso
precisa cessar.
O
desafio para todo cristão em 2026 é claro e exigente: colocar os valores do
Reino de Deus acima de qualquer bandeira partidária. A nossa identidade
primária não é de esquerda, de direita ou de centro; a nossa identidade
primária é batismal. Somos, antes de tudo, filhos de Deus e irmãos em Cristo.
Quando a preferência política nos faz odiar o irmão, difamar o próximo ou
romper a comunhão eclesial, transformamos a ideologia em idolatria.
A
liturgia de hoje nos aponta o caminho. Maria é Mãe de todos os
discípulos. Aos pés da Cruz, ela não fez distinções; ela acolheu o Corpo de seu
Filho, ferido e chagado. A Igreja, corpo místico de Cristo, não pode permitir
que as paixões políticas a desmembrem. Como nos alertou o Apóstolo Paulo: "Acaso
Cristo está dividido?" (1 Cor 1,13).
O
cristão deve, sim, ser "sal da terra e luz do mundo" na política,
defendendo a vida, a justiça social, a liberdade e a dignidade humana. Mas deve
fazê-lo com a caridade que é o distintivo dos seguidores de Jesus. A verdade
não precisa de gritos nem de ofensas para ser anunciada.
Que
em 2026, tenhamos a coragem de ser artífices da unidade. Que nossas paróquias
sejam oásis de fraternidade onde as diferenças de opinião não anulem o
mandamento do amor. Que saibamos debater ideias sem atacar pessoas.
Começamos
o ano pedindo a intercessão da Theotokos, a Mãe de Deus. Que Ela, Rainha
da Paz, nos ensine que só construiremos um país melhor se formos capazes de nos
reconhecer, novamente, como irmãos. Que o amor de Cristo seja o único partido a
governar plenamente os nossos corações.
Um
santo, abençoado e unido ano de 2026 a todos!
+Dom
Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá
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