O Dia Internacional da Mulher não é apenas uma data de homenagens efêmeras ou de gestos simbólicos. Para nós, cristãos, e para todos aqueles que buscam a construção de uma civilização do amor, este dia é um chamado ao exame de consciência e à renovação de um compromisso inadiável: o reconhecimento pleno da dignidade feminina como alicerce sobre o qual se ergue a família, a Igreja e a própria sociedade.
Ao percorrermos as páginas sagradas, percebemos que Deus frequentemente
escolheu o coração feminino para manifestar Suas maiores delicadezas. No Antigo
Testamento, vemos a figura de Rute, cuja fidelidade e resiliência nos ensinam
que o amor vai além dos laços de sangue. Contemplamos Ana, que com suas
lágrimas e orações insistentes, mostrou que a fé da mulher é capaz de mover o
coração do Altíssimo.
No Evangelho, encontramos o encontro transformador de Jesus com a
Samaritana. Naquele diálogo junto ao poço, Cristo não apenas ofereceu a
"água viva", mas devolveu àquela mulher a sua dignidade roubada pelos
julgamentos sociais. Jesus nunca viu na mulher um objeto ou um ser secundário;
Ele a viu como interlocutora da Verdade. Recordamos também as irmãs de Betânia,
Marta e Maria, que representam as duas faces da alma feminina: o serviço
generoso e a escuta atenta. É essa síntese entre o "fazer" e o
"ser" que torna a presença feminina indispensável em nossas
comunidades.
A estratégia de Deus para salvar a humanidade passou, necessariamente,
pelo consentimento de uma mulher. Maria Santíssima é o nosso maior referencial.
Ela não é apenas um ícone de pureza, mas uma mulher de fibra, que enfrentou a
pobreza de Belém, o exílio no Egito e a dor indescritível do Calvário.
Em Nossa Senhora, celebramos a força do silêncio que gera vida. Ela é a
"Mãe das Dores", mas também a "Causa da Nossa Alegria". Ao
olharmos para Maria, entendemos que a missão da mulher é ser esse sacrário
vivo, onde a esperança é gestada e protegida. Exaltar a Virgem Maria é,
portanto, um compromisso de lutar para que nenhuma mulher seja desamparada em
sua maternidade, para que nenhuma mãe chore a perda de seus filhos para a
violência ou para o abandono.
É preciso falar com clareza aos homens: o respeito às mulheres não é um
mérito, é uma obrigação intrínseca à nossa condição humana e cristã. Não há
espaço para o autoritarismo ou para a opressão no plano de Deus. A
masculinidade autêntica se manifesta na capacidade de proteger, honrar e
caminhar lado a lado, nunca à frente ou acima.
Infelizmente, ainda testemunhamos estatísticas alarmantes de violência e
desigualdade. Como homens de fé, somos convocados a ser os primeiros a
denunciar essas injustiças. O respeito deve começar nos pequenos gestos: na
divisão das tarefas domésticas, no apoio à carreira profissional da esposa, no
incentivo ao estudo das filhas e no combate a qualquer comentário ou atitude
que reduza a mulher a uma condição inferior. A verdadeira força do homem está
em sua capacidade de reconhecer e reverenciar a grandeza feminina.
A Igreja Católica no Brasil respira através do trabalho incansável das
mulheres. Se hoje temos paróquias vivas, é porque existem milhares de mulheres
que, como Santa Dulce dos Pobres, não medem esforços para servir. Irmã Dulce
não pedia licença para fazer o bem; ela simplesmente o fazia, movida por uma
caridade que não conhece cansaço. Ela nos ensinou que a fragilidade física,
quando unida à força do espírito feminino, é capaz de realizar milagres
sociais.
Não podemos esquecer de Santa Gianna Beretta Molla, que deu a vida por
sua filha, ou de Santa Josefina Bakhita, que transformou o trauma da escravidão
em um testemunho de liberdade em Deus. Mas quero aqui render uma homenagem
especial às mulheres anônimas: as catequistas, as ministras da Eucaristia, as
líderes da Pastoral da Criança e, especialmente, as mães e avós. São elas que
guardam as chaves da fé. São elas que, com paciência infinita, ensinam o
caminho da oração e mantêm acesa a chama da caridade em um mundo que muitas
vezes parece mergulhado na indiferença.
Neste Dia Internacional da Mulher, minha palavra é de profunda gratidão.
Obrigado a você, mulher, por ser o reflexo da ternura de Deus na terra. Que o
seu protagonismo cresça cada vez mais, não apenas por conquista política, mas
por reconhecimento de sua essência vital.
Rezamos para que as políticas públicas sejam mais justas, para que o
mercado de trabalho seja mais humano e para que cada lar seja um santuário de
paz e respeito mútuo. Que a bênção de Deus, por intercessão de Maria, acompanhe
cada passo, cada luta e cada vitória de vocês.
Com minha bênção e estima paterna.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá
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