Irmãos e
irmãs,
Celebramos hoje o quarto domingo da
Quaresma, conhecido na tradição da Igreja como Domingo Laetare, o
domingo da alegria. No meio do caminho quaresmal, a liturgia nos convida a
levantar o olhar e a renovar a esperança. A antífona de entrada já proclama: “Alegra-te,
Jerusalém!” A alegria que celebramos hoje não é superficial; ela nasce da
certeza de que Deus está agindo em nossa história e conduzindo-nos para a luz
da Páscoa.
A liturgia deste domingo apresenta um
tema muito profundo: a luz. O Evangelho de hoje, retirado de São João (Jo
9,1-41), narra a cura do cego de nascença. Não se trata apenas de um milagre
físico, mas de um verdadeiro caminho de iluminação, um itinerário de fé.
Ao ver o cego, os discípulos perguntam
a Jesus: “Mestre, quem pecou para que este homem nascesse cego: ele ou seus
pais?” Era comum, naquela época, associar o sofrimento a um castigo pelo
pecado. Jesus, porém, rejeita essa lógica e afirma que aquela situação se
tornaria ocasião para que as obras de Deus se manifestassem.
Jesus então declara: “Eu sou a luz
do mundo.” Com esse gesto e com essa palavra, Cristo revela que veio para
libertar a humanidade das trevas do pecado, do egoísmo e da falta de sentido.
Ele unge os olhos do cego com o barro e o envia a lavar-se na piscina de Siloé.
Depois de obedecer à palavra de Jesus, aquele homem volta enxergando.
Mas o Evangelho mostra que a cura
física é apenas o começo. O verdadeiro milagre acontece no interior daquele
homem. Aos poucos, ele vai descobrindo quem é Jesus. Primeiro o chama de homem,
depois o reconhece como profeta e, finalmente, diante do Senhor, professa sua
fé dizendo: “Eu creio, Senhor!”
Enquanto o cego passa da escuridão
para a luz, os fariseus fazem o caminho contrário. Eles pensam que veem tudo
claramente, mas permanecem fechados à verdade. Presos ao legalismo e ao
orgulho, recusam-se a reconhecer a ação de Deus. Assim, o Evangelho revela que
existe uma cegueira muito mais grave do que a física: a cegueira do coração.
A segunda leitura, da Carta aos
Efésios (Ef 5,8-14), retoma esse tema quando São Paulo diz: “Outrora éreis
trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz.” Pelo
Batismo, fomos iluminados por Cristo e chamados a viver de modo diferente. Ser
filho da luz significa praticar a bondade, a justiça e a verdade.
Também a primeira leitura, do Primeiro
Livro de Samuel (1Sm 16,1b.6-7.10-13a), oferece uma importante lição. Ao
escolher Davi como rei, Deus recorda a Samuel: “O homem vê as aparências, mas o
Senhor olha o coração.” Quantas vezes também nós julgamos pelas aparências e
não enxergamos a verdade mais profunda das pessoas e das situações!
Este domingo nos convida, portanto, a
fazer um exame de consciência. Quais são as cegueiras que ainda existem em
nossa vida? Às vezes é o orgulho, o preconceito, a indiferença diante do
sofrimento do próximo, ou mesmo a falta de fé que nos impede de perceber a
presença de Deus.
A Quaresma, tempo favorável de oração,
jejum, penitência, conversão e caridade, é precisamente o tempo em que o Senhor
deseja abrir os nossos olhos. Ele nos chama à conversão, à escuta da Palavra, à
oração, ao jejum e à caridade, para que possamos enxergar com mais clareza o
caminho do Evangelho.
Como aquele homem curado, também nós
somos convidados a dar testemunho daquilo que Deus faz em nossa vida. O cego
não sabia explicar tudo, mas afirmava com simplicidade: “Uma coisa eu sei:
eu era cego e agora vejo.” Esta é também a missão do cristão: testemunhar a
luz de Cristo no mundo.
Peçamos, portanto, ao Senhor, neste Domingo da Alegria, que ilumine o
nosso coração e cure nossas cegueiras espirituais. Que possamos enxergar a luz
divina na compaixão para com o próximo, particularmente, o doente, o
necessitado e o que mais precisa. Que esta Quaresma nos ajude a caminhar da
escuridão para a luz, para que possamos chegar à Páscoa com o coração renovado.
Que Maria, Mãe da Igreja, nos
acompanhe neste caminho e nos ajude a permanecer sempre na luz de seu Filho. Amém.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá, PR
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