Já
passamos da metade do tempo da Quaresma. Tempo favorável de mudança de vida, de
penitência, jejum, oração e caridade. Chegamos ao 4º Domingo da Quaresma, chamado Domingo Laetare, o domingo da
alegria. A própria antífona de entrada da Missa reza: “Alegra-te,
Jerusalém! Reuni-vos... exultai de alegria!” As leituras deste domingo
propõem-nos o tema da “luz”.
Definem a experiência cristã como “viver
na luz”.
No
Evangelho (Jo 9,1-41),
Jesus apresenta-se como “a luz do
mundo”; a sua missão é libertar os homens das trevas
do egoísmo, do orgulho e da autossuficiência. Aderir à proposta de Jesus é
enveredar por um caminho de liberdade e de realização que conduz à vida plena.
Da ação de Jesus nasce, assim, o Homem
Novo, isto é, o homem elevado às suas máximas potencialidades
pela comunicação do Espírito de Jesus. Ao curar o cego de nascença, Jesus
revela-se a luz da humanidade. O relato vai descortinando progressivamente quem
é Jesus: Mestre, Profeta, Messias e
Senhor. O episódio ilustra o itinerário cristão de busca de
Jesus e de adesão a Ele.
Jesus se manifesta
como a luz do mundo
(Jo 9,1-41). O sinal da cura do cego — o sexto entre os sete sinais relatados
no Evangelho de João — é realizado em um dia de sábado e liga-se à Festa das Tendas, festa da água e da
luz. No Batismo fomos iluminados por Cristo e chamados a nos comportar como filhos da luz e a caminhar na luz.
Caminhar na luz é
abandonar as falsas luzes; abandonar os discursos agressivos e polarizados,
fugir das divisões e quebrar os muros de separação. Devemos vencer o egoísmo e
deixar de lado os caminhos da competição e da busca doentia do lucro
acumulativo e do descarte das pessoas. Esses comportamentos são do diabo.
“Pelo mistério da
encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas e
elevou à dignidade de filhos e filhas os nascidos na escravidão do pecado,
fazendo-os renascer das águas do Batismo”.
A Quaresma é tempo
de iluminação para quem se dispõe a ser iluminado. Os fariseus, que pensavam
enxergar bem, em sua autorreferencialidade,
eram insensíveis ao sofrimento humano e guiavam-se por preconceitos,
alimentando a cultura do descartável.
O cego, ao contrário, dispõe-se a percorrer o caminho de adesão à luz que é
Jesus: a princípio vê nele um homem; depois passa a considerá-lo um profeta;
para, ao final, professar plena adesão: “Eu creio, Senhor!”
E as cegueiras em
sua vida? Quais são as cegueiras que você terá de vencer? O preconceito? O
legalismo? Nós precisamos curar os
preconceitos, para que a luz de Cristo ilumine a nossa vida.
Na segunda leitura
(Ef 5,8-14), São Paulo
propõe aos cristãos de Éfeso que recusem viver à margem de Deus (“trevas”) e
que escolham a “luz”.
Em concreto, Paulo explica que viver na luz é praticar as obras de Deus: a bondade, a justiça e a verdade.
Com o Batismo, nos tornamos luz no Senhor. O apóstolo nos convida a viver como
filhos e filhas da luz, praticando a bondade, a justiça e a verdade e
abandonando as obras das trevas.
A primeira leitura
(1Sm 16,1.6-7.10-13)
não se refere diretamente ao tema da luz
(tema central na liturgia deste domingo). No entanto, narra a escolha de Davi para rei de Israel e a sua
unção. É um ótimo pretexto para refletirmos sobre a unção que recebemos no dia
do nosso Batismo e que nos constituiu testemunhas da luz de Deus no mundo. Davi
é o ungido de Deus, eleito rei de Israel. As decisões divinas nem sempre
coincidem com as humanas. As pessoas olham as aparências; Deus vê o coração. Na
escolha de nossos representantes, é importante não se deixar levar pelas
aparências, mas observar suas ações e realizações.
Assim como ao cego
de nascença Jesus abriu os olhos, hoje Ele também nos abre os olhos da fé e da
esperança, curando nossa cegueira e fazendo-nos enxergar os sinais vivos do seu
amor. Nós somos chamados a crer no
Filho de Deus. Não apenas com uma crença pessoal, mas com uma
fé comunitária e eclesial.
Peçamos ao Senhor que este tempo da Quaresma seja uma oportunidade única para
curar nossas cegueiras espirituais e renovar nossa visão da fé.
+
Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR

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