A caminhada
quaresmal que realizamos todos os anos é um convite insistente da Igreja para
que voltemos o nosso olhar para o essencial, e reconheçamos a nossa fragilidade
e a nossa profunda necessidade de Deus. Neste abençoado tempo de graça, a
iniciativa das 24 Horas para o Senhor surge como um verdadeiro oásis no meio do
deserto das nossas preocupações diárias. Em comunhão com toda a Igreja e sob a
guia espiritual do nosso Santo Padre, o Papa Leão XIV, a liturgia nos chama a
vivenciar um momento de parada, de escuta e de reconciliação. A proposta de
manter as portas dos nossos templos abertas durante um dia e uma noite inteiros
é um sinal visível e profético de que o coração de Deus jamais fecha suas
portas para os seus filhos. É a imagem de uma Igreja que não dorme, mas que
vigia e aguarda, de braços abertos, o retorno daqueles que perderam o rumo
pelos caminhos da vida.
Em nossa missão de promover e cuidar
da vida através do Instituto de Cooperação para o Desenvolvimento da Saúde, o
ICDS, compreendemos de forma muito clara que a saúde humana compõe uma
realidade integral. Não podemos separar as dores do corpo das angústias da
alma. Muitas vezes, os corredores dos hospitais revelam enfermidades físicas
que as feridas espirituais profundas agravam ou até mesmo originam: o peso da
culpa, a falta de perdão, o ressentimento que a pessoa guarda por anos e a
solidão que adoece o coração. Diante dessa realidade, as 24 Horas para o Senhor
apresentam um imenso ambulatório espiritual, um pronto-socorro da misericórdia
divina. Quando uma igreja mantém suas portas abertas durante a madrugada, ela
oferece o melhor de todos os remédios: o encontro pessoal com Jesus Cristo, o
Divino Médico que veio curar os corações despedaçados.
O sacramento da Reconciliação
centraliza esta jornada de cura. Infelizmente, muitos cristãos ainda nutrem um
temor infundado em relação à confissão, pois enxergam o confessionário como um
tribunal de acusações. Precisamos resgatar a beleza deste sacramento como o
lugar do abraço paterno. O perdão de Deus atua como o bálsamo que estanca a
hemorragia do nosso egoísmo e purifica a nossa consciência. Quem aproxima seus
passos do sacerdote para confessar as suas faltas não caminha para uma
condenação, mas busca uma libertação. O perdão alivia o peso que esmaga a mente
e devolve a paz que nenhum tratamento humano consegue proporcionar por si só. É
o momento em que a graça limpa a ferida, o que permite à pessoa voltar a
caminhar com dignidade e esperança.
Junto à celebração do perdão, a
adoração eucarística contínua oferece a terapia do silêncio que o nosso mundo
tanto necessita. A ansiedade, o ativismo e o excesso de informações adoecem a
sociedade e exaurem as mentes. Entrar em uma igreja silenciosa, ajoelhar-se
diante do Santíssimo Sacramento e simplesmente permanecer ali, na presença
Daquele que nos ama infinitamente, constitui um ato de profundo descanso. Na
adoração, não precisamos de muitas palavras. Basta entregar as nossas
preocupações, as nossas famílias e as nossas dores nas mãos do Senhor. É nesse
silêncio curativo que Jesus dissipa os nossos medos e nós encontramos a força
necessária para enfrentar as cruzes do cotidiano. O olhar amoroso de Cristo na
Eucaristia possui o poder de acalmar as nossas tempestades interiores.
Peço a cada irmão e irmã que não deixe
passar essa oportunidade de graça. Façam o esforço de visitar o Senhor, mesmo
que por alguns instantes. Convido de modo especial aqueles que trabalham na
área da saúde, que convivem diariamente com o mistério da dor e da finitude
humana, a buscarem neste momento a renovação de suas próprias forças. E aos
meus irmãos sacerdotes, suplico que atuem como médicos compassivos no
confessionário, e apliquem o remédio da misericórdia com a mesma ternura que
Jesus demonstrava ao tocar os enfermos. Que Nossa Senhora, a Saúde dos Enfermos
e Mãe da Divina Graça, nos acompanhe nestas horas santas. Que ela nos ensine a
confiar plenamente no amor do seu Filho, para que, ao experimentarmos a cura e
a reconciliação, possamos celebrar a alegria da Páscoa com um coração novo e
cheio de paz. Que a bênção de Deus Todo-Poderoso desça sobre todos vós e
permaneça para sempre.
Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
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