Irmãos e irmãs, ao celebrarmos o quinto domingo da Quaresma, a
Igreja nos conduz ao ápice do itinerário quaresmal com o Evangelho da
ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-45). Já não estamos apenas em um tempo
de penitência, mas diante do mistério central da nossa fé: Cristo é Senhor
da vida e da morte. A liturgia de hoje nos prepara diretamente para a
Semana Santa, mostrando que a cruz não é o fim, mas o caminho para a
vida nova.
Na primeira leitura (Ez 37,12-14), o profeta Ezequiel anuncia uma
promessa extraordinária de Deus ao povo exilado: “Eis que vou abrir as
vossas sepulturas e vos farei sair delas, ó meu povo” (Ez 37,12). Não se
trata apenas de um retorno geográfico do exílio, mas de uma verdadeira
recriação. Deus promete infundir o seu Espírito para que o povo volte a
viver: “Porei em vós o meu espírito, para que vivais” (Ez 37,14). Aqui já
se revela que a ação de Deus não é apenas restauradora, mas vivificadora:
Ele tira da morte e conduz à vida.
Na segunda leitura (Rm 8,8-11), São Paulo aprofunda esse
ensinamento ao afirmar que a vida cristã não se sustenta na “carne”, isto é,
na autossuficiência humana, mas no Espírito. Ele declara: “Se o Espírito
daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele
que ressuscitou Jesus dentre os mortos vivificará também os vossos corpos
mortais” (Rm 8,11). A ressurreição, portanto, não é apenas uma promessa
futura, mas uma realidade que já começa agora, na vida daqueles que
vivem segundo o Espírito.
O Evangelho (Jo 11,1-45) nos apresenta o sinal decisivo: a
ressurreição de Lázaro. A narrativa é profundamente humana e, ao mesmo
tempo, profundamente divina. Marta expressa a dor e a fé: “Senhor, se
tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11,21). Quantas
vezes também nós dizemos isso diante do sofrimento! Contudo, ela dá um
passo além ao confiar: “Eu sei que tudo o que pedires a Deus, ele te
concederá” (Jo 11,22).
É então que Jesus revela uma das afirmações mais fortes de todo o
Evangelho: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que
morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais”
(Jo 11,25-26). Essa não é apenas uma consolação, mas uma revelação: a
vida eterna não começa depois da morte, ela começa no encontro com
Cristo.
Outro aspecto profundamente marcante é a comoção de Jesus. Diante
do túmulo, o Evangelho diz: “Jesus chorou” (Jo 11,35). Deus não é
indiferente à dor humana. Ele entra na nossa realidade, sofre conosco,
partilha nossa condição. Mas Ele não permanece no choro: Ele transforma
a dor em vida.
Ao ordenar: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43), Jesus manifesta
seu poder sobre a morte. No entanto, Lázaro sai ainda envolto em faixas, e
Jesus diz: “Desatai-o e deixai-o caminhar” (Jo 11,44). Esse detalhe é
fundamental: Lázaro volta à vida terrena e ainda precisa ser libertado.
Diferente de Cristo, que ressuscitará glorioso e definitivo.
Este Evangelho nos interpela diretamente: quais são os “túmulos” em
que ainda estamos presos? Pecados, vícios, desesperanças, medos? A
Palavra de hoje é um chamado: sair da morte para a vida. Cristo continua a
dizer: “Vem para fora!”
A proximidade da Semana Santa torna esse chamado ainda mais
urgente. Não podemos chegar à Páscoa da mesma forma que começamos a
Quaresma. É preciso permitir que Cristo retire as pedras que fecham o
nosso coração e nos devolva a vida.
Crer na ressurreição não é apenas professar uma verdade no Credo,
mas viver como ressuscitados. É deixar para trás tudo aquilo que nos
aprisiona e caminhar na liberdade dos filhos de Deus. Como afirma São
Paulo: “Se Cristo está em vós, o corpo está morto por causa do pecado,
mas o Espírito é vida por causa da justiça” (Rm 8,10).
Ao nos aproximarmos dos dias santos, peçamos a graça de uma
verdadeira conversão. Que possamos, como Marta, professar nossa fé:
“Sim, Senhor, eu creio!” (Jo 11,27). E que, ao ouvirmos a voz de Cristo,
tenhamos a coragem de sair de nossos túmulos para viver a vida nova que
Ele nos oferece.
Assim, preparados pela Palavra e fortalecidos pelo Espírito, entremos
na Semana Santa não como espectadores, mas como participantes do
mistério. Pois aquele que chamou Lázaro à vida é o mesmo que, pela sua
cruz e ressurreição, nos chama a passar definitivamente da morte para a
vida.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
A Ressurreição de Lázaro, por Duccio di Buoninsegna, c.1255–1319.

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