Irmãos e irmãs,
A
liturgia deste terceiro domingo da Quaresma nos apresenta um tema central para
a nossa caminhada espiritual: a sede
de Deus e a água viva que Cristo oferece ao coração humano. A
Palavra de Deus nos conduz a refletir sobre nossa própria sede interior e sobre
a resposta que Deus oferece à humanidade.
Na
primeira leitura, retirada do livro do Êxodo (Ex 17,3-7), vemos o povo de
Israel atravessando o deserto. O texto diz: “O povo estava com sede de água
e murmurou contra Moisés” (Ex 17,3). A sede física torna-se ocasião de
reclamação e desconfiança. O povo chega a questionar: “O Senhor está no
meio de nós ou não?” (Ex 17,7).
Essa
pergunta, feita no deserto, continua ecoando no coração de muitas pessoas ainda
hoje. Diante das dificuldades da vida, das crises e das provações, muitos
também perguntam: Deus está realmente
conosco? A resposta de Deus vem através do gesto que Ele pede a
Moisés: “Bate na rocha, e dela sairá água para o povo beber” (Ex
17,6). Deus faz brotar vida onde aparentemente só há dureza e aridez. A
tradição cristã sempre viu nessa rocha uma figura de Cristo. São Paulo
afirmará: “A rocha era Cristo” (1Cor 10,4). O Evangelho aprofunda
ainda mais esse tema ao narrar o encontro de Jesus com a samaritana junto ao
poço de Jacó (Jo 4,5-42). Cansado da viagem, Jesus senta-se junto ao poço e
diz: “Dá-me de beber” (Jo 4,7).
Esse
pedido simples abre um diálogo profundo. Aos poucos, Jesus revela que existe
uma sede muito maior do que a sede física. Ele afirma: “Quem beber desta
água tornará a ter sede; mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá
sede” (Jo 4,13-14). A água do poço sacia apenas por um momento. A água que
Cristo oferece sacia para sempre. Essa água viva é a graça de Deus, o Espírito Santo que transforma o
coração humano.
A
samaritana, no início, não compreende totalmente as palavras de Jesus. Ela
pensa apenas na água material. Mas o Senhor conduz o diálogo para algo mais
profundo, revelando a verdade de sua vida e abrindo-lhe o caminho da conversão.
Esse encontro mostra algo fundamental: Deus
toma a iniciativa de nos encontrar, mesmo quando nossa
vida está marcada por fragilidades e contradições. A mulher samaritana tinha
uma história complicada, mas Jesus não a rejeita. Pelo contrário, oferece-lhe
uma vida nova.
A
Quaresma é justamente esse tempo de encontro com Cristo. Um tempo em que o
Senhor se aproxima de nós e nos convida a reconhecer nossas sedes mais
profundas: sede de sentido, de amor, de perdão e de esperança. São Paulo, na
segunda leitura – Rm 5,1-2.5-8 –, lembra-nos que essa esperança não decepciona:
“O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que
nos foi dado” (Rm 5,5). Deus não permanece distante da humanidade. Ele se
aproxima de nós de modo radical em Jesus Cristo.
O
apóstolo vai ainda mais longe ao afirmar: “Cristo morreu por nós quando
ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Isso significa que o amor de Deus não
depende de nossa perfeição. Ele nos ama primeiro e nos oferece a possibilidade
de recomeçar. Voltando ao Evangelho, vemos que o encontro com Jesus transforma
profundamente aquela mulher. Ela deixa o cântaro e vai à cidade anunciar: “Vinde
ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?” (Jo
4,29).
O
detalhe de que ela deixa o cântaro
é muito significativo. Aquele objeto representava sua busca cotidiana pela água
do poço. Agora, porém, ela encontrou algo maior. Quem encontra Cristo descobre
uma fonte que não se esgota. Além disso, a samaritana torna-se missionária.
Aquela que antes estava isolada agora anuncia a Boa-Nova. O encontro com Jesus
não transforma apenas a vida pessoal; ele também gera missão.
A
Quaresma nos convida exatamente a isso: encontrar
Cristo, deixar para trás aquilo que não sacia nosso coração e tornar-nos
testemunhas da fé. Por isso, a Palavra de Deus hoje nos provoca
com algumas perguntas importantes: De onde estamos tentando saciar nossa sede?
Em quais “poços” estamos buscando felicidade? Estamos realmente abertos para
acolher a água viva que Cristo oferece?
Muitas
vezes procuramos preencher o coração com coisas passageiras: poder, sucesso,
reconhecimento, bens materiais. No entanto, nada disso consegue saciar
plenamente o coração humano. Como dizia Santo Agostinho: “Fizeste-nos para
Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
Cristo continua sentado junto ao poço da nossa vida, esperando o momento de
dialogar conosco. Ele conhece nossa história, nossas fragilidades e nossas
buscas. Mesmo assim, nos oferece a água viva da graça.
Neste
tempo quaresmal, somos convidados a nos aproximar mais dessa fonte. A oração
nos coloca em diálogo com Deus; o jejum nos ajuda a ordenar nossos desejos; e a
caridade abre nosso coração ao amor fraterno. Se acolhermos verdadeiramente
essa água viva, nossa vida também será transformada. E, como a samaritana,
poderemos anunciar aos outros a alegria de ter encontrado o Senhor.
Que
nesta caminhada quaresmal possamos escutar a voz de Deus que nos diz no salmo
de hoje: “Oxalá ouvísseis hoje a voz do Senhor: não endureçais os vossos
corações” (Sl 94,8). Abramos o coração para Cristo, a fonte de água viva,
para que Ele sacie nossa sede mais profunda e nos conduza à verdadeira vida. Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo emérito de Maringá (PR)
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