O
4º Domingo da Páscoa é considerado o “Domingo do Bom Pastor”, pois, todos os
anos, a liturgia propõe, neste domingo, um trecho do capítulo 10 do Evangelho
segundo João, no qual Jesus é apresentado como o “Bom Pastor”. A imagem evoca
proximidade, cuidado, ternura, confiança, segurança, paz e vida em abundância.
É bom podermos entregar a nossa vida nas mãos de um tal Pastor.
Ao
nos reunirmos em torno de Jesus, o Pastor que nos conduz pelos caminhos da
felicidade e a Porta que nos possibilita a passagem para a verdadeira
liberdade, recordamos que Ele nos conhece pelo nome, manifesta sua ternura para
conosco e caminha à nossa frente. Curados por seu amor, rezemos pelas vocações
religiosas e presbiterais e por todas as que se colocam a serviço do Reino de
Deus.
No
Evangelho (Jo 10,1-10), Jesus recorre a duas imagens para descrever a missão
que o Pai lhe confiou: Ele é o “Bom Pastor” e “a porta” que dá acesso às
ovelhas. Como “Bom Pastor”, Ele cuida das ovelhas de Deus com dedicação e amor,
liberta-as do domínio da escravidão e leva-as ao encontro das pastagens
verdejantes, onde há vida em plenitude. Como “porta”, Ele exerce uma dupla
função: impede que os “ladrões e salteadores” tenham acesso às ovelhas e
torna-se a referência para aquelas que entram e saem. A vida dos que pertencem
ao rebanho de Deus constrói-se e compreende-se a partir de Jesus. Somente quem
passa pela porta — Jesus — é reconhecido como verdadeiro pastor, que conhece
suas ovelhas e cuja voz elas reconhecem. A missão do pastor é fazer com que as
ovelhas — isto é, as pessoas — tenham vida em abundância. Nas imagens do pastor
e da porta revela-se o caminho da liberdade que Jesus torna possível.
A
primeira leitura (At 2,14.36-41) define o percurso que Jesus, o “Bom Pastor”,
propõe às suas ovelhas: é preciso abandonar o egoísmo e a escravidão
(converter-se), aderir a Jesus e segui-Lo (ser batizado), acolher a vida nova
de Deus e deixar-se recriar, vivificar e transformar por ela (receber o
Espírito Santo). Diante do discurso de Pedro, muitos se perguntam: “O que
devemos fazer?”. Pedro responde que é necessário converter-se, isto é,
abrir-se à nova realidade trazida pelo Ressuscitado e receber o batismo.
Na
segunda leitura (1Pd 2,20-25), São Pedro convida os batizados a contemplarem o
exemplo de Cristo: “insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não
respondia com ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça”.
Jesus, o “Bom Pastor”, aponta-nos o caminho que conduz à vida. Se seguirmos
suas orientações, não seremos ovelhas desgarradas. O seguimento de Jesus pode
trazer incompreensões e até perseguições; ainda assim, os discípulos são
chamados a perseverar na prática do bem, a exemplo de Cristo, que foi levado à
morte por fazer o bem.
Jesus,
Bom Pastor e Porta das ovelhas, é a referência cuja autoridade se expressa no
serviço e na doação de si. As ovelhas o conhecem pela tonalidade da voz; basta
um sinal — um “vem!” inconfundível — para que o sigam sem temor. Elas o
reconhecem como presença protetora, que orienta, conforta e cura.
Assim
é Cristo para nós. Para Ele nunca somos desconhecidos, pois nos conhece
intimamente. De nossa parte, porém, nem sempre é fácil distinguir a voz do Bom
Pastor. Há o risco constante de nos distrairmos com o ruído de tantas vozes e
até de nos deixarmos enganar — ainda mais neste tempo marcado por fake news,
desinformação nas mídias sociais e pela polarização que gera ódio e levanta
muros. O Evangelho nos convida a seguir decididamente Jesus, o Ressuscitado, o
único guia seguro que dá sentido à nossa vida: “Eu vim para que tenham vida
e a tenham em abundância!” (Jo 10,10).
Desde
os primeiros séculos, os cristãos representaram Jesus Ressuscitado como o Bom
Pastor, carregando nos ombros a ovelha ferida e com o cajado na mão, sinal de
cuidado, condução e misericórdia. Neste domingo, ao contemplarmos Cristo como o
Bom Pastor, somos chamados a abrir o coração à sua voz, permitindo que Ele nos
conduza com segurança pelos caminhos da vida. Nele encontramos refúgio, direção
e sentido. Segui-Lo é viver sob o cuidado de um amor que não falha.
+
Anuar Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR

Comentários
Postar um comentário