Irmãos
e irmãs,
Celebramos
o 4º Domingo da Páscoa, tradicionalmente chamado de Domingo do Bom Pastor. Em
pleno tempo pascal, a Igreja nos convida a contemplar Cristo Ressuscitado como
aquele que conduz o seu povo, que conhece suas ovelhas e que dá a vida por
elas. Não é apenas uma imagem bonita, mas uma afirmação forte: Jesus é o único
Pastor verdadeiro, e fora d’Ele não há vida em plenitude.
No
Evangelho (Jo 10,1-10), Jesus não começa falando diretamente como pastor, mas
como “porta”. Isso já desmonta uma compreensão superficial. Antes de conduzir,
Ele é o acesso. “Eu sou a porta”, diz o Senhor. Ou seja, não há outro caminho
legítimo para a vida senão passar por Ele. Tudo o que tenta oferecer sentido à
vida sem Cristo — ideologias, promessas fáceis, discursos sedutores — o próprio
Evangelho chama de “ladrões e salteadores”. É uma linguagem dura, mas
necessária. Nem toda voz merece ser ouvida, nem todo caminho conduz à vida.
Depois,
Jesus apresenta a figura do pastor. Diferente dos falsos líderes, Ele entra
pela porta, chama cada ovelha pelo nome e caminha à frente. Aqui está um ponto
decisivo: Deus não conduz seu povo à distância. Ele se envolve, conhece, chama
pessoalmente. Não somos massa anônima. Cada um é conhecido, chamado e amado. No
entanto, isso também exige resposta: as ovelhas escutam a sua voz e o seguem.
Não basta dizer-se cristão; é preciso reconhecer concretamente a voz de Cristo
no meio de tantas outras.
E
aqui está uma dificuldade muito atual. Vivemos cercados de vozes: redes
sociais, opiniões, ideologias, polarizações, fake ews. Tudo grita, tudo quer
nos conduzir. O problema não é a falta de orientação, mas o excesso de vozes.
Nesse contexto, discernir a voz do Bom Pastor torna-se um desafio espiritual
sério. Quem não cultiva o silêncio interior, a oração e a escuta da Palavra
acaba seguindo qualquer voz mais alta ou mais conveniente.
A
primeira leitura (At 2,14.36-41) mostra o efeito concreto de escutar a voz de
Cristo. Após o discurso de Pedro, o povo pergunta: “O que devemos fazer?”. Essa
pergunta é fundamental. Quem realmente escuta o Evangelho não fica indiferente.
Pedro responde com clareza: “Convertei-vos e cada um seja batizado”. Ou seja,
ouvir Cristo implica mudar de vida. Não há seguimento sem conversão. O problema
é que muitos querem consolo sem mudança, promessa sem exigência, fé sem
compromisso.
Na
segunda leitura (1Pd 2,20-25), São Pedro aprofunda ainda mais: seguir o Bom
Pastor significa trilhar o caminho de Cristo, inclusive no sofrimento.
“Insultado, não respondia com injúrias.” Aqui não há romantização. O caminho de
Cristo passa pela cruz. O verdadeiro discípulo não revida com ódio, não
alimenta violência, não se deixa dominar pelo ressentimento. Isso vai contra a
lógica do mundo, mas é exatamente isso que distingue quem realmente pertence ao
rebanho de Cristo.
Neste
domingo, a Igreja também nos convida a rezar pelas vocações, especialmente
sacerdotais. Mas é importante dizer com clareza: não basta pedir mais padres, é
preciso pedir pastores segundo o coração de Cristo. E isso também exige
comunidades que valorizem, apoiem e vivam seriamente a fé. A crise vocacional
não é apenas falta de chamados; é também falta de testemunho coerente.
Por
fim, Jesus afirma: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo
10,10). Essa vida não é conforto fácil, nem ausência de problemas. É vida
plena, com sentido, com direção, com verdade. Fora de Cristo, pode haver
prazer, sucesso ou poder, mas não há plenitude.
Portanto,
irmãos e irmãs, a pergunta que fica é simples e exigente: de quem estamos
ouvindo a voz? Quem está conduzindo nossas escolhas, nossos valores, nossa vida
concreta? Não basta admirar o Bom Pastor; é preciso segui-Lo.
Que,
neste tempo pascal, tenhamos coragem de silenciar as vozes que nos confundem e
abrir o coração para escutar a voz de Cristo. E, uma vez reconhecida, não
hesitemos: sigamos o único Pastor que dá a vida por suas ovelhas e nos conduz à
verdadeira liberdade.
Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo
Emérito de Maringá, PR

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