Irmãos e irmãs, celebramos neste 11º Domingo do Tempo Comum, e a Palavra de Deus nos conduz ao coração da missão da Igreja. A liturgia de hoje nos mostra um Deus que chama, reúne, cuida e envia. Não somos um povo abandonado à própria sorte; somos um povo escolhido para testemunhar a presença de Deus no mundo.
Na primeira leitura, do Livro do Êxodo (Ex 19,2-6a),
Israel chega ao Monte Sinai depois da libertação do Egito. O Senhor recorda ao
povo sua ação salvadora: “Vistes o que fiz aos egípcios e como vos carreguei
sobre asas de águia e vos trouxe a mim” (Ex 19,4). A imagem da águia expressa
proteção, força e cuidado. Deus não salva seu povo de maneira fria ou distante;
Ele conduz com amor.
Em seguida, o Senhor faz uma proposta de aliança: “Se
ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção
escolhida dentre todos os povos” (Ex 19,5). Israel é chamado a ser “uma nação
santa” (Ex 19,6), não para viver isolado, mas para manifestar ao mundo a
santidade de Deus.
Essa eleição, porém, não é privilégio. É
responsabilidade. Quanto maior o dom recebido, maior o compromisso. O povo
escolhido deve refletir a justiça, a misericórdia e a fidelidade do Senhor.
No Evangelho (Mt 9,36–10,8), vemos Jesus contemplando
as multidões. São Mateus descreve uma das cenas mais comoventes da vida pública
de Cristo: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam
cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36).
Cristo olha para a dor humana e sofre com ela. Seu
olhar não é de condenação, mas de compaixão. Ele vê um povo desorientado
espiritualmente, ferido interiormente, perdido diante da vida.
Essa realidade continua atual. Também hoje existem
multidões cansadas e abatidas: pessoas sem esperança, famílias destruídas,
jovens mergulhados no vazio, idosos esquecidos, pessoas dominadas pela
ansiedade, pela violência e pela falta de sentido espiritual. Vivemos uma época
de muito barulho e pouca escuta de Deus.
Diante disso, Jesus afirma: “A messe é grande, mas os
trabalhadores são poucos” (Mt 9,37). O problema não está na falta de
necessidade; o problema está na falta de operários dispostos ao serviço do
Reino.
Por isso, Cristo manda rezar: “Pedi, pois, ao Senhor
da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” (Mt 9,38). Antes da
missão vem a oração. Não existem verdadeiras vocações sem uma Igreja que reza.
Toda comunidade cristã deveria suplicar constantemente por sacerdotes santos,
religiosos fiéis e leigos comprometidos com o Evangelho.
Logo depois, Jesus chama os doze apóstolos e lhes dá
autoridade sobre os espíritos impuros e sobre as enfermidades (cf. Mt 10,1).
Isso é importante: o Senhor não chama homens perfeitos. Entre os apóstolos
havia pessoas simples, frágeis e limitadas. A força da missão não vem das
capacidades humanas, mas da graça de Deus.
O Evangelho ainda apresenta o conteúdo da missão: “Ide
e proclamai que o Reino dos Céus está próximo” (Mt 10,7). Evangelizar significa
anunciar que Deus continua agindo, salvando e chamando a humanidade à
conversão.
Mas Jesus não envia os discípulos apenas para falar.
Ele diz também: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os
leprosos, expulsai os demônios” (Mt 10,8). A evangelização precisa atingir a
vida concreta das pessoas. O anúncio do Evangelho deve trazer esperança, consolo,
libertação e misericórdia.
Na segunda leitura, São Paulo recorda o fundamento de
tudo isso: “Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8). O
amor de Deus não nasceu de nossos méritos. Fomos amados em nossa fraqueza. A
cruz de Cristo revela um amor gratuito, misericordioso e fiel.
É justamente essa experiência do amor de Deus que
transforma o cristão em missionário. Quem encontrou verdadeiramente Cristo não
consegue guardar essa experiência apenas para si. A fé não pode se reduzir a
devoções privadas ou práticas exteriores; ela deve gerar testemunho.
O cristão é chamado a evangelizar na família, no
trabalho, na escola, na política, na cultura e na sociedade. Muitas vezes
pensamos que missão é algo reservado apenas aos padres ou religiosos, mas todo
batizado é missionário.
O atual pontificado de Papa Leão XIV tem insistido
frequentemente na necessidade de uma Igreja missionária, enraizada em Cristo e
capaz de dialogar com o mundo sem perder a verdade do Evangelho.
Vivemos tempos difíceis para a fé. Há muito
relativismo, muita superficialidade espiritual e um crescente afastamento de
Deus. Em muitos ambientes, falar de Cristo parece inconveniente. Porém, o
Evangelho de hoje nos lembra que a missão da Igreja não depende das facilidades
do mundo, mas da fidelidade dos discípulos.
Jesus termina dizendo: “Recebestes de graça, de graça
dai!” (Mt 10,8). Tudo o que temos vem de Deus: a vida, a fé, a esperança, o
perdão e a salvação. O discípulo não pode transformar a fé em interesse
pessoal, prestígio ou poder. Quem recebeu gratuitamente deve servir
gratuitamente.
Peçamos, portanto, neste domingo, que o Senhor
desperte em nós um verdadeiro espírito missionário. Que não sejamos cristãos
acomodados ou silenciosos diante do mundo. Que saibamos olhar as multidões com
os olhos compassivos de Cristo e responder generosamente ao chamado do Senhor
da messe.
Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja e Rainha dos
Apóstolos, interceda por nós, para que sejamos discípulos fiéis e missionários
corajosos do Evangelho. Amém.
+Anuar Battisti
Arcebispo emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
O Bom Pastor, por Lucas Cranach, o Velho, c.
1472-1553.
Coleção do Museu de Anger, Erfurt, Alemanha

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