A Vigília da Natividade de São João Batista e o Mistério da Vocação
Há uma frase que atravessa as leituras desta Vigília da
Solenidade da Natividade de São João Batista como uma corrente subterrânea. Ela
aparece em Jeremias, ressoa no Salmo e encontra sua forma mais concreta no
anúncio do anjo a Zacarias: Deus age antes. Antes de qualquer escolha nossa,
antes mesmo de qualquer possibilidade humana, Deus já está trabalhando. "Antes
de formar-te no ventre materno, eu te conheci" (Jr 1,5). Essas palavras
foram ditas a Jeremias, um jovem que se achava despreparado, sem eloquência,
sem experiência. Mas a vocação não nasce da competência humana. Ela nasce do
coração de Deus. E o que vale para Jeremias vale para João Batista, e vale, de
alguma forma, para cada um de nós.
O que a Vigília nos convida a contemplar? A Igreja, ao celebrar a Vigília da natividade de São João
Batista, faz algo que vai além de uma preparação litúrgica. Ela nos convida a
entrar num ritmo diferente de tempo. Não o tempo da urgência e da
produtividade, mas o tempo da espera atenta. O tempo em que Deus prepara, em
silêncio, aquilo que o mundo ainda não consegue ver. Zacarias e Isabel
eram "justos diante de Deus e obedeciam fielmente a todos os mandamentos e
ordens do Senhor" (Lc 1,6). E mesmo assim, carregavam uma dor: não tinham
filhos. A esterilidade, naquela cultura, era vivida como ausência de futuro.
Mas Deus não havia esquecido. Ele guardava, para o momento certo, uma resposta
que ultrapassava qualquer expectativa humana. O anjo aparece no Templo,
no momento da oração, no silêncio do incenso que sobe. E diz a Zacarias:
"Não tenhas medo, porque Deus ouviu tua súplica" (Lc 1,13). Às vezes,
a resposta de Deus demora tanto que chegamos a pensar que ele não ouviu. A
liturgia de hoje nos lembra: ele ouviu. Ele sempre ouve. O que parece silêncio
de Deus é, muitas vezes, o silêncio de quem está tecendo algo maior do que
pedimos.
João: o homem que veio antes. O
menino que nasceria se chamaria João. "Ele vai ser grande diante do
Senhor" (Lc 1,15). Não grande diante dos homens, não grande pelo poder ou
pela riqueza. Grande diante do Senhor. Essa distinção é importante. Em um mundo
que mede grandeza pela visibilidade, pela influência e pelo reconhecimento,
João representa um outro padrão. Ele viria "com o espírito e o
poder de Elias" (Lc 1,17). Não para ser o centro, mas para preparar o
caminho. A vocação de João é, em essência, uma vocação de serviço ao outro. Ele
existe para apontar para alguém maior. Como diz a aclamação ao Evangelho:
"João veio dar testemunho da Luz, a fim de preparar um povo bem-disposto
para a vinda do Senhor" (cf. Jo 1,7; Lc 1,17).
Há algo profundamente libertador nessa identidade. João não
precisa ser o Messias. Ele precisa ser João. E ser João já é suficiente, porque
é exatamente isso que Deus precisava que ele fosse.
O que os profetas buscavam, nós recebemos: São Pedro, em sua carta, nos oferece uma perspectiva que
deveria encher o coração de gratidão. Os profetas investigaram e meditaram
sobre a salvação que estava por vir. Eles anunciaram, mas não viram.
"Foi-lhes revelado que, não para si mesmos, mas para vós, estavam
ministrando estas coisas" (1Pd 1,12). Nós vivemos do outro lado dessa
espera. A salvação que os profetas buscavam com tanto empenho, nós a recebemos.
João Batista foi o último elo dessa longa cadeia de testemunhas que preparou o
caminho. E nós, que já conhecemos o nome daquele que veio, somos chamados a
viver com a mesma intensidade de quem entende o que recebeu.
A fé, segundo Pedro, não depende de ver. "Sem ter visto o
Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais" (1Pd 1,8). Esse
amor sem ver, essa fé que sustenta mesmo na ausência de provas visíveis, é o
que transforma a vida cotidiana em testemunho. É o que transforma uma pessoa
comum em precursor, em profeta, em sinal para os outros.
Uma palavra para hoje: A Vigília
da Solenidade de São João Batista nos coloca diante de uma pergunta simples,
mas séria: você acredita que Deus tinha um plano para você antes mesmo de você
nascer? Não um plano que elimina a liberdade, mas um plano que convida. Uma
vocação que espera ser acolhida. Zacarias duvidou. E ficou em silêncio
por meses. Não foi punição, foi tempo de interiorização. Às vezes, Deus nos
coloca em silêncio não para nos castigar, mas para que possamos ouvir com mais
profundidade o que ele quer nos dizer.
Nesta noite, antes da festa, que possamos fazer como o povo que
estava do lado de fora do Templo, rezando, enquanto Zacarias recebia o anúncio.
A oração não é o lugar dos que já sabem tudo. É o lugar dos que esperam, dos
que confiam, dos que acreditam que Deus ainda tem palavras novas a dizer. Caminhai
no Senhor.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
Crédito da imagem:
O nascimento de João Batista, por Pontormo,
c.1494.
Coleção da Galeria Uffizi, em Florença,
Itália

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