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Dom Anuar Batisti
Formado em filosofia no Paraná e em teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma, Dom Anuar Battisti é Arcebispo Emérito de Maringá (PR). Em 15 de abril de 1998, por escolha do papa João Paulo II, foi nomeado bispo diocesano de Toledo, sendo empossado no mesmo dia da ordenação episcopal, em 20 de junho daquele ano. Em 2009 recebeu o título de Doutor Honoris Causa, um dos mais importantes, concedidos pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Em 2007, foi presidente da Comissão para os Ministérios Ordenados e a Vida Sagrada, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 2015, foi membro do Conselho Administrativo da Pastoral da Criança Internacional e, ainda na CNBB, foi delegado suplente. No Conselho Episcopal Latino-Americano atuou como Presidente do Departamento das Vocações e Ministérios, até 2019.

O Coração que Guarda e o Santo que Proclama

 

Maria, Mãe de Jesus, e Antônio de Lisboa: dois corações abertos à Palavra

A liturgia do dia 13 de junho nos coloca diante de dois testemunhos que se iluminam mutuamente. Celebramos o Imaculado Coração de Maria, aquele coração que, como nos diz o Evangelho de Lucas, "conservava todas estas coisas" (Lc 2,51). E celebramos também Santo Antônio de Lisboa, o pregador que transformou a Palavra guardada em Palavra proclamada. Maria guarda. Antônio anuncia. E entre os dois, há uma continuidade que não é coincidência: é o Espírito que age.

O Evangelho de hoje – Lc 2,41-52 – nos apresenta uma cena familiar e ao mesmo tempo desconcertante. José e Maria perdem Jesus durante três dias. Quando o encontram no Templo, sentado entre os mestres, a resposta do menino os deixa sem compreensão: "Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?" (Lc 2,49). A reação de Maria não é de orgulho nem de escândalo. É de silêncio interior. Ela "conservava no coração todas estas coisas."

Guardar no coração não é esquecer. É deixar amadurecer. É ter a humildade de reconhecer que nem tudo se compreende de imediato, mas que Deus está agindo, mesmo quando a situação parece fugir ao controle.

Antônio aprendeu com Maria a guardar antes de proclamar. Fernando, que mais tarde tomaria o nome de Antônio, passou anos em silêncio. Primeiro nos agostinianos de São Vicente, depois em Coimbra, onde por oito anos se dedicou ao estudo das Escrituras e da teologia. Eram anos de formação, de escuta, de guardar. Como Maria, ele deixou a Palavra habitar nele antes de sair a proclamá-la.

Isaías – Is 61,9-11 – já anunciava essa lógica quando dizia: "Assim como a terra faz brotar a planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a justiça" (Is 61,11). A semente precisa do solo. A Palavra precisa de um coração que a acolha. Maria foi esse solo. Antônio também foi. Não é por acaso que o dom de Antônio como pregador se revelou justamente quando ele não havia se preparado para falar. Em Forlì, em setembro de 1222, ninguém queria improvisar o sermão. Antônio tomou a palavra, e o que saiu não era improviso: era o fruto de anos de silêncio, de oração, de meditação. O coração cheio transborda. Quem guarda bem, anuncia com verdade.

A fé sem caridade é uma fé morta, Bento XVI, ao citar Antônio, nos deixou uma frase que resume toda a espiritualidade deste santo: "A caridade é a alma da fé, torna-a viva; sem amor, a fé morre." Essa sentença não é apenas uma bela imagem. É um diagnóstico e um programa de vida.

Maria viveu isso de forma radical. Ela não apenas acreditou no anjo. Ela foi à casa de Isabel. Ela ficou ao pé da cruz. Ela estava no cenáculo no dia de Pentecostes. O coração imaculado de Maria não é um coração fechado em si mesmo. É um coração que ama, que serve, que acompanha.

Antônio também não ficou fechado em suas celas de estudo. Ele foi ao povo. Ele atendeu confissões por horas a fio. Ele enfrentou heresias não com arrogância, mas com a força de quem conhece a verdade e a ama. A multidão que se reunia em torno dele em Pádua não era atraída por um acadêmico frio, mas por um homem que tinha o coração cheio de Deus e de compaixão pelas pessoas.

O cântico de Ana, que hoje rezamos no Salmo, proclama que "o Senhor ergue do pó o homem fraco, do lixo ele retira o indigente, para fazê-los assentar-se com os nobres" (1Sm 2,8). Esse é o Deus de Maria. Esse é o Deus de Antônio. Um Deus que não despreza os pequenos, mas os levanta. Uma fé que não se fecha na doutrina, mas que desce até o chão onde as pessoas vivem e sofrem.

Caminhar no Senhor com o coração aberto. Irmãos e irmãs, o que estes dois testemunhos nos pedem hoje? Primeiro, que aprendamos a guardar. Nem tudo precisa ser respondido de imediato. Nem toda dúvida precisa ser resolvida na hora. Maria nos ensina que há uma sabedoria no silêncio interior, no deixar que Deus trabalhe dentro de nós antes de sairmos a agir.

Segundo, que o que guardamos precisa um dia ser dado. Antônio passou anos em formação, mas chegou o momento em que a Palavra guardada precisava ser proclamada. O coração que guarda não é um cofre. É um jardim, como diz Isaías. O jardim existe para dar fruto.

Terceiro, que a caridade é o critério de tudo. A fé que não se torna amor ao próximo, atenção ao fraco, presença junto ao que sofre, não é ainda a fé plena que o Evangelho propõe. Maria foi ao encontro de Isabel. Antônio foi ao encontro dos pecadores. Nós somos chamados ao encontro de quem está ao nosso redor.

Hoje, 13 de junho, dia em que Antônio exalou o último suspiro murmurando "Eu vejo o meu Senhor", a Igreja nos convida a olhar para esses dois corações: o de Maria, que guardou, e o de Antônio, que proclamou. E nos pergunta: o que você tem guardado no coração? E o que você tem feito com isso?

Que o Senhor nos conceda corações como o de Maria: capazes de guardar com fidelidade. E corações como o de Antônio: capazes de dar o que receberam, com caridade, com coragem e com alegria. Caminhai no Senhor.

+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

 

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