Maria, Mãe de Jesus, e Antônio de Lisboa: dois corações abertos
à Palavra
A liturgia do dia 13 de junho
nos coloca diante de dois testemunhos que se iluminam mutuamente. Celebramos o
Imaculado Coração de Maria, aquele coração que, como nos diz o Evangelho de
Lucas, "conservava todas estas coisas" (Lc 2,51). E celebramos também
Santo Antônio de Lisboa, o pregador que transformou a Palavra guardada em
Palavra proclamada. Maria guarda. Antônio anuncia. E entre os dois, há uma
continuidade que não é coincidência: é o Espírito que age.
O Evangelho de hoje – Lc 2,41-52
– nos apresenta uma cena familiar e ao mesmo tempo desconcertante. José e Maria
perdem Jesus durante três dias. Quando o encontram no Templo, sentado entre os
mestres, a resposta do menino os deixa sem compreensão: "Não sabeis que
devo estar na casa de meu Pai?" (Lc 2,49). A reação de Maria não é de
orgulho nem de escândalo. É de silêncio interior. Ela "conservava no
coração todas estas coisas."
Guardar no coração não é
esquecer. É deixar amadurecer. É ter a humildade de reconhecer que nem tudo se
compreende de imediato, mas que Deus está agindo, mesmo quando a situação
parece fugir ao controle.
Antônio aprendeu com Maria a
guardar antes de proclamar. Fernando,
que mais tarde tomaria o nome de Antônio, passou anos em silêncio. Primeiro nos
agostinianos de São Vicente, depois em Coimbra, onde por oito anos se dedicou
ao estudo das Escrituras e da teologia. Eram anos de formação, de escuta, de
guardar. Como Maria, ele deixou a Palavra habitar nele antes de sair a
proclamá-la.
Isaías – Is 61,9-11 – já
anunciava essa lógica quando dizia: "Assim como a terra faz brotar a
planta e o jardim faz germinar a semente, assim o Senhor Deus fará germinar a
justiça" (Is 61,11). A semente precisa do solo. A Palavra precisa de um
coração que a acolha. Maria foi esse solo. Antônio também foi. Não é por acaso
que o dom de Antônio como pregador se revelou justamente quando ele não havia
se preparado para falar. Em Forlì, em setembro de 1222, ninguém queria
improvisar o sermão. Antônio tomou a palavra, e o que saiu não era improviso:
era o fruto de anos de silêncio, de oração, de meditação. O coração cheio
transborda. Quem guarda bem, anuncia com verdade.
A fé sem caridade é uma fé morta,
Bento XVI, ao citar Antônio, nos deixou uma frase que resume
toda a espiritualidade deste santo: "A caridade é a alma da fé, torna-a
viva; sem amor, a fé morre." Essa sentença não é apenas uma bela imagem. É
um diagnóstico e um programa de vida.
Maria viveu isso de forma
radical. Ela não apenas acreditou no anjo. Ela foi à casa de Isabel. Ela ficou
ao pé da cruz. Ela estava no cenáculo no dia de Pentecostes. O coração
imaculado de Maria não é um coração fechado em si mesmo. É um coração que ama,
que serve, que acompanha.
Antônio também não ficou
fechado em suas celas de estudo. Ele foi ao povo. Ele atendeu confissões por
horas a fio. Ele enfrentou heresias não com arrogância, mas com a força de quem
conhece a verdade e a ama. A multidão que se reunia em torno dele em Pádua não
era atraída por um acadêmico frio, mas por um homem que tinha o coração cheio
de Deus e de compaixão pelas pessoas.
O cântico de Ana, que hoje
rezamos no Salmo, proclama que "o Senhor ergue do pó o homem fraco, do
lixo ele retira o indigente, para fazê-los assentar-se com os nobres" (1Sm
2,8). Esse é o Deus de Maria. Esse é o Deus de Antônio. Um Deus que não
despreza os pequenos, mas os levanta. Uma fé que não se fecha na doutrina, mas
que desce até o chão onde as pessoas vivem e sofrem.
Caminhar no Senhor com o
coração aberto. Irmãos e irmãs, o que estes
dois testemunhos nos pedem hoje? Primeiro, que aprendamos a guardar. Nem tudo
precisa ser respondido de imediato. Nem toda dúvida precisa ser resolvida na
hora. Maria nos ensina que há uma sabedoria no silêncio interior, no deixar que
Deus trabalhe dentro de nós antes de sairmos a agir.
Segundo, que o que guardamos
precisa um dia ser dado. Antônio passou anos em formação, mas chegou o momento
em que a Palavra guardada precisava ser proclamada. O coração que guarda não é
um cofre. É um jardim, como diz Isaías. O jardim existe para dar fruto.
Terceiro, que a caridade é o
critério de tudo. A fé que não se torna amor ao próximo, atenção ao fraco,
presença junto ao que sofre, não é ainda a fé plena que o Evangelho propõe.
Maria foi ao encontro de Isabel. Antônio foi ao encontro dos pecadores. Nós
somos chamados ao encontro de quem está ao nosso redor.
Hoje, 13 de junho, dia em
que Antônio exalou o último suspiro murmurando "Eu vejo o meu Senhor",
a Igreja nos convida a olhar para esses dois corações: o de Maria, que guardou,
e o de Antônio, que proclamou. E nos pergunta: o que você tem guardado no
coração? E o que você tem feito com isso?
Que o Senhor nos conceda
corações como o de Maria: capazes de guardar com fidelidade. E corações como o
de Antônio: capazes de dar o que receberam, com caridade, com coragem e com
alegria. Caminhai no Senhor.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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