Quando o amor de Deus se torna carne, história e convite
A liturgia de hoje nos conduz por três momentos que se
completam: a memória de uma escolha, o fundamento de um amor e o convite de um
coração.
Uma
escolha que não depende de nós
Na primeira leitura desta Solenidade – Dt 7, 6-11 – Moisés fala
ao povo com uma clareza que deveria nos surpreender ainda hoje. "O Senhor
se afeiçoou a vós e vos escolheu, não por serdes mais numerosos que os outros
povos — na verdade sois o menor de todos — mas, sim, porque o Senhor vos
amou" (Dt 7,7-8). Israel não foi escolhido por mérito. Foi escolhido por
amor. Ponto.
Isso subverte toda a lógica humana. Vivemos num mundo que mede,
que classifica, que elege os maiores, os mais fortes, os mais influentes. Deus
age ao contrário. Ele se volta para o menor. Ele escolhe o que os outros
ignoram. E faz isso não por impulso passageiro, mas com fidelidade de aliança:
"um Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil
gerações" (Dt 7,9).
Quando celebramos o Sagrado Coração, estamos diante desse mesmo
Deus. Não de uma devoção sentimental, mas de uma revelação histórica: Deus amou
primeiro, amou livremente e amou com constância. O coração de Jesus não é
apenas um símbolo. É o lugar onde essa fidelidade se tornou carne, pulsou,
sangrou e permaneceu aberto.
Deus
é amor — e isso muda tudo
Na segunda leitura – 1Jo 4,7-16 – João não usa palavras por
acaso. Ele escreve com a precisão de quem viu de perto e precisou de décadas
para entender o que tinha diante dos olhos. "Deus é amor: quem permanece
no amor, permanece com Deus, e Deus permanece com ele" (1Jo 4,16). Não diz
apenas que Deus ama. Diz que Deus é amor. O amor não é um atributo entre
outros. É a natureza do Pai.
E como esse amor se manifestou? "Deus enviou o seu Filho
único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele" (1Jo 4,9). O Sagrado
Coração de Jesus é exatamente isso: o amor de Deus que se torna visível,
tangível, histórico. Não fomos nós que tomamos a iniciativa. "Não fomos
nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou" (1Jo 4,10). Essa inversão
é o coração do Evangelho. E ela nos liberta de uma espiritualidade baseada no
esforço de conquistar Deus. Ele já veio ao nosso encontro.
João ainda acrescenta algo que tem peso pastoral enorme:
"Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece conosco e seu amor é
plenamente realizado entre nós" (1Jo 4,12). O amor de Deus não fica
guardado numa experiência privada. Ele se completa no amor fraterno. O Sagrado
Coração de Jesus pulsa nas comunidades que se amam, nas famílias que se
perdoam, nas equipes que se respeitam, nos serviços que se doam sem calcular o
retorno.
O
coração manso que nos chama ao descanso
Jesus faz, no Evangelho de Mateus – Mt 11, 25-30 –, uma das
afirmações mais belas e mais desafiantes de toda a sua pregação: "Vinde a
mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e
eu vos darei descanso" (Mt 11,28). Ele não chama os que já chegaram. Chama
os cansados. Os que carregam peso. Os que estão no limite.
E depois revela quem ele é: "sou manso e humilde de
coração" (Mt 11,29). Aqui está o núcleo da solenidade. O coração de Jesus
não é um coração de poder ou de dominação. É um coração que se abaixa. Que
escuta. Que acolhe sem julgamento imediato. Que revela o Pai não aos sábios que
já sabem tudo, mas "aos pequeninos" (Mt 11,25), aos que ainda têm
espaço para receber.
O jugo que Jesus oferece não é ausência de responsabilidade. É
uma forma diferente de carregar a vida. Com ele, o peso tem sentido. O caminho
tem companhia. E o coração encontra onde pousar.
Caminhai
no Senhor
Irmãos e irmãs, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não nos
pede apenas sentimento. Pede conversão. Pede que deixemos de buscar amor onde
ele não existe, que paremos de nos provar aos olhos de um Deus que já nos
escolheu. Pede que tratemos o outro com a mansidão que recebemos.
Nesta solenidade, que o Coração de Jesus seja para nós mais do
que uma imagem. Que seja um endereço. O lugar aonde voltamos quando estamos
cansados, onde aprendemos a amar como fomos amados e de onde saímos com o fardo
mais leve.
O amor do Senhor Deus por quem o teme é de sempre e perdura para
sempre.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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