Na Jornada Mundial de Oração pela Santificação do Clero, a Igreja nos convida a rezar por aqueles que, muitas vezes, rezam por todos, mas raramente encontram quem reze por eles
Nunca esqueci esse padre. E é por ele, e
por tantos outros que carregam esse cansaço em silêncio, que a Igreja celebra,
nesta Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Jornada Mundial de Oração pela
Santificação do Clero. Uma jornada instituída por São João Paulo II em 1995,
que a cada ano nos convoca a parar e rezar por nossos sacerdotes, não como
figuras distantes, mas como irmãos que caminham conosco e que, como nós, também
precisam ser sustentados.
O que o Papa nos pede
O Papa Leão XIV colocou no coração desta
jornada de 2026 uma intenção que tem o peso da honestidade: rezar pelos
sacerdotes em crise. Não pelos sacerdotes em geral, de forma abstrata. Pelos
que estão em crise. Pelos que atravessam momentos em que "a solidão pesa,
as dúvidas obscurecem o coração e o cansaço parece mais forte do que a
esperança". São palavras do próprio Papa, e elas não foram escolhidas por
acaso.
Leão XIV nos lembra que os sacerdotes
"não são funcionários nem heróis solitários, mas filhos amados, discípulos
humildes e estimados, e pastores amparados pela oração de seu povo". Essa
frase merece ser lida devagar. Filhos amados. Não máquinas de celebrar
sacramentos. Não gestores de comunidade. Filhos. Com fragilidades, com
histórias, com feridas, com necessidade de ternura.
Quantos dos nossos padres carregam isso
em silêncio porque aprenderam, desde o seminário, que mostrar fraqueza é sinal
de falta de fé? Quantos continuam servindo, mesmo quando o chão interior está
cedendo, por que ninguém ao redor parece notar ou perguntar?
O sacerdote e o Coração de Jesus
Não é por acaso que esta Jornada sempre
coincide com a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. O coração de Cristo é o
modelo de todo sacerdócio. É um coração que amou sem reservas, que se entregou
sem calcular o retorno, que foi atravessado por uma lança e que, mesmo aberto e
ferido, continuou a ser fonte de vida.
Todo sacerdote é chamado a viver essa
lógica. A se dar. A estar disponível. A carregar o peso dos outros com uma
generosidade que, humanamente, não tem fundo. E é exatamente por isso que o
sacerdote precisa voltar sempre a esse coração. Não como exercício devocional
apenas, mas como necessidade vital. Quem se doa sem se alimentar, seca. E um
padre seco não tem como dar água a ninguém.
São João Paulo II, ao instituir esta
Jornada, queria exatamente isso: criar um momento anual em que toda a Igreja
olhasse para seus sacerdotes com olhos de gratidão e de intercessão. Em que o
povo de Deus lembrasse que a santificação do padre não é responsabilidade só
dele. É obra do Espírito Santo, mas passa também pela oração, pelo afeto e pelo
cuidado da comunidade que ele serve.
Caminhar junto, não apenas ser servido
Há algo que a Igreja sinodal nos ensina
com clareza crescente: ninguém caminha sozinho. Nem o bispo. Nem o padre. Nem o
leigo. Caminhamos juntos, ou não caminhamos bem. E caminhar junto com os
sacerdotes significa, na prática, algo muito concreto.
Significa perguntar ao padre como ele
está, com genuína intenção de ouvir a resposta. Significa não tratar o pároco
como um prestador de serviços religiosos, mas como um irmão que partilha a
mesma fé e os mesmos desafios de viver o Evangelho num mundo que, muitas vezes,
não quer ouvi-lo. Significa criar, dentro das comunidades paroquiais, uma cultura
de cuidado que não espere o padre chegar ao limite para agir.
O Pe. Cristóbal Fones, diretor da Rede
Mundial de Oração do Papa, resumiu bem: "Os sacerdotes precisam saber que
não estão sozinhos." Essa frase simples carrega uma responsabilidade imensa
para cada um de nós. Somos nós, o povo de Deus, que podemos fazer com que um
padre sinta ou não sinta que está sozinho.
O que a oração faz que o olho não vê
Não subestime o poder da oração por um
sacerdote. Há padres que perseveraram em momentos de crise não porque alguém
lhes deu uma grande palestra ou um retiro extraordinário, mas porque alguém, em
silêncio, estava rezando por eles. A intercessão do povo de Deus é uma força
real, que age no invisível e produz frutos no visível.
O Papa Leão XIV pede que rezemos para
que o Espírito Santo reacenda nos sacerdotes "a alegria do
Evangelho". Alegria. Não eficiência. Não produtividade. Alegria. Aquela
que nasce de saber que se é amado por Deus e que se está no lugar certo,
fazendo o que foi chamado a fazer. Essa alegria pode ser roubada pelo cansaço,
pela solidão, pela sensação de inutilidade. E pode ser devolvida, em parte,
pela oração sincera de quem ama seus pastores.
Um convite para hoje
Nesta Solenidade do Sagrado Coração de
Jesus, faço a cada um de vocês um convite simples. Pensem num padre. Pode ser o
pároco de vocês, um sacerdote que marcou a vida de alguém da família, um padre
jovem que vocês conhecem e que ainda está encontrando o seu caminho. E, por
favor, não se esqueçam de rezar pelos padres privados de seu ministério. E olha
que são muitos! E rezem pelos sacerdotes hoje. Com nome. Com intenção. Pedindo
ao Coração de Jesus que o sustente, que o renove, que lhe devolva a alegria de
ter sido chamado.
E se puderem, digam a ele. Uma mensagem,
uma palavra, um gesto. "Padre, estou rezando pelo senhor." Essas
palavras têm mais peso do que parece. Às vezes são exatamente o que um coração
cansado precisa ouvir para continuar. Caminhai no Senhor!
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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