Irmãos e irmãs, celebramos hoje uma das mais belas solenidades do calendário litúrgico: a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Nesta festa, a Igreja nos convida a contemplar o amor infinito de Deus manifestado no Coração de Cristo. Não celebramos apenas um órgão físico de Jesus, mas o centro de sua pessoa, o lugar simbólico de seus sentimentos, de sua misericórdia, de sua compaixão e de seu amor sem limites pela humanidade.
A Palavra de Deus
proclamada nesta liturgia apresenta-nos precisamente esse amor divino. Na
primeira leitura, retirada do Livro do Deuteronômio (Dt 7,6-11), Moisés recorda
ao povo que Deus o escolheu não por seus méritos ou por sua grandeza. Pelo
contrário, Israel era o menor entre os povos. Deus o escolheu simplesmente
porque o amava. A eleição de Israel não nasceu da força humana, mas da
gratuidade do amor divino. Deus permanece fiel à sua aliança porque ama. Esta é
uma verdade fundamental para a nossa fé: Deus não nos ama porque somos bons;
somos chamados a ser bons porque Deus nos amou primeiro.
O Salmo Responsorial
(Sl 102/103) continua esta reflexão ao proclamar: “O amor do Senhor por quem
o respeita é de sempre e para sempre”. O salmista recorda que Deus é
compassivo e misericordioso, lento para a cólera e rico em bondade. Quantas
vezes experimentamos essa misericórdia em nossa própria vida! Quantas vezes nos
afastamos de Deus e, ainda assim, Ele permanece de braços abertos esperando
nosso retorno.
Na segunda leitura
(1Jo 4,7-16), São João nos oferece uma das mais profundas definições de toda a
Sagrada Escritura: “Deus é amor”. Não diz apenas que Deus ama, mas que
Ele é amor em sua própria essência. Todo o mistério da salvação nasce desse
amor. O próprio Filho de Deus veio ao mundo para manifestar concretamente esse
amor e nos ensinar a amar. São João afirma ainda que quem permanece no amor
permanece em Deus e Deus permanece nele. Portanto, a verdadeira devoção ao
Sagrado Coração de Jesus não consiste apenas em rezar diante de uma imagem ou
participar de uma celebração. Ela exige que aprendamos a amar como Cristo amou.
O Evangelho (Mt 11,25-30) apresenta uma das passagens mais
consoladoras de toda a Escritura. Jesus convida: “Vinde a mim todos vós que
estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”.
Quantas pessoas carregam hoje pesados fardos! Fardos da doença, do sofrimento,
da solidão, do desemprego, das preocupações familiares, das angústias
espirituais e das incertezas do futuro. Jesus não promete uma vida sem
dificuldades, mas oferece seu Coração como refúgio seguro para todos os que
sofrem.
Em seguida, Jesus revela algo extraordinário sobre si mesmo: “Aprendei
de mim, porque sou manso e humilde de coração”. Em toda a Escritura, esta é
a única vez em que Jesus descreve diretamente o seu próprio coração. Ele não
diz que é poderoso, sábio ou glorioso. Diz que é manso e humilde. O Coração de
Jesus é um coração que acolhe, que perdoa, que compreende, que se inclina sobre
os feridos da vida e que não rejeita ninguém que o procure com sinceridade.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus desenvolveu-se ao longo dos
séculos na vida da Igreja, mas recebeu um impulso especial através das
revelações particulares feitas a Santa Margarida Maria Alacoque, no século
XVII. Nelas, Jesus manifestava a dor de seu Coração diante da indiferença
humana e, ao mesmo tempo, revelava o desejo de derramar abundantes graças sobre
aqueles que recorressem ao seu amor misericordioso. A imagem tradicional do
Sagrado Coração mostra um coração cercado de espinhos, coroado pela cruz e
envolto em chamas. Os espinhos representam os pecados da humanidade; a cruz
recorda o sacrifício redentor; as chamas simbolizam o amor ardente que Cristo
tem por cada um de nós.
Ao celebrarmos esta solenidade, somos convidados a fazer um exame
de consciência. Como temos correspondido ao amor de Deus? Temos procurado viver
segundo o Evangelho? Temos amado os nossos irmãos? Temos sido misericordiosos
como o Senhor é misericordioso conosco? Muitas vezes desejamos um Deus que nos
perdoe, mas temos dificuldade de perdoar. Desejamos compreensão para nossas
fraquezas, mas somos severos com os erros dos outros. O Sagrado Coração de
Jesus nos chama à conversão do coração.
Além disso, esta solenidade recorda-nos a importância da
reparação. Diante de tantas ofensas, injustiças, blasfêmias e pecados presentes
no mundo, somos chamados a oferecer nossas orações, sacrifícios e atos de amor
em reparação ao Coração de Cristo. Não se trata de um gesto de tristeza, mas de
amor. Quem ama deseja consolar o amado.
Celebramos também, nesta data, o Dia Mundial de Oração pela
Santificação dos Sacerdotes. Não é por acaso que a Igreja uniu esta intenção à
festa do Sagrado Coração. O sacerdote é chamado a configurar sua vida ao
Coração de Cristo, Bom Pastor. Por isso, rezemos hoje por todos os sacerdotes,
para que sejam homens segundo o Coração de Jesus: humildes, misericordiosos,
disponíveis para servir, fiéis ao Evangelho e zelosos pela salvação das almas.
Meus irmãos e irmãs, num mundo marcado pelo individualismo, pela
violência, pela indiferença e pelo egoísmo, o Sagrado Coração de Jesus continua
sendo um sinal luminoso de esperança. Seu Coração permanece aberto para acolher
os pecadores, confortar os aflitos, fortalecer os desanimados e conduzir todos
à comunhão com Deus.
Que nesta solenidade possamos renovar nossa confiança no amor de
Cristo. Aproximemo-nos de seu Coração com fé, depositemos nele nossas alegrias,
sofrimentos, preocupações e esperanças. Que aprendamos de Jesus a mansidão e a
humildade. E que, transformados por seu amor, possamos levar ao mundo o
testemunho da caridade, da misericórdia e da paz.
Sagrado Coração de Jesus, fonte inesgotável de amor e
misericórdia, fazei o nosso coração semelhante ao vosso.
Amém.
+Anuar
Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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