Uma reflexão sobre escolhas, sabedoria e alegria a partir do Evangelho deste domingo
O Evangelho deste 17º Domingo do Tempo Comum, Mt 13,44-52, nos
coloca diante dessa pergunta com duas imagens simples e fortíssimas. Um homem
encontra um tesouro escondido no campo e vende tudo para comprá-lo. Outro
encontra uma pérola de grande valor e faz o mesmo. Em ambos os casos, não há
hesitação nem tristeza. Jesus diz que o homem age "cheio de alegria".
E aqui está o ponto que talvez passe despercebido em uma leitura apressada:
quem descobre o valor verdadeiro de algo não sente que está perdendo, sente que
está ganhando.
Isso muda completamente a forma como devemos entender o
desprendimento cristão. Não é sacrifício amargo. É lucidez alegre. Quem já
experimentou, ainda que uma única vez, a presença real de Deus tocando o
coração, sabe que tudo o mais passa a ter outro peso. Não porque as coisas boas
da vida deixem de valer, mas porque encontram seu lugar certo, deixando de ser
o centro para se tornarem meios.
A primeira leitura – 1Rs 3,5.7-12 – nos apresenta o rei Salomão
em um momento decisivo. Deus lhe oferece qualquer coisa que ele desejar, e o
jovem rei, consciente de sua fragilidade, pede um coração capaz de discernir
entre o bem e o mal. Ele não pede riqueza, nem vitória, nem longevidade. Pede
sabedoria para servir bem ao povo que lhe foi confiado. Em 1Rs 3,9, ele diz
claramente: "Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de
governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal".
Quantas vezes, no meio das responsabilidades que carregamos,
sejam elas familiares, profissionais ou comunitárias, nos falta exatamente
isso: não informação, não estratégia, mas um coração que saiba discernir com
honestidade o que é justo. A sabedoria que a Bíblia elogia não é acúmulo de
conhecimento, é capacidade de julgar bem diante da vida real, com seus dilemas
concretos.
O Salmo responsorial confirma esse caminho quando afirma, em Sl
118(119),72, que a lei de Deus vale mais do que milhões em ouro e prata. Uma
afirmação corajosa para os tempos atuais, em que tantas vezes se mede o valor
de uma pessoa pelo que ela possui, e não pelo que ela é capaz de discernir e de
amar.
Já a segunda leitura, tirada de Rm 8,28-30, traz uma palavra de
imenso consolo. São Paulo escreve que tudo contribui para o bem daqueles que
amam a Deus. Não significa que tudo o que vivemos seja bom, sabemos bem que não
é assim, mas significa que nada fica fora do olhar amoroso de Deus, nem mesmo
as dificuldades que atravessamos. Ele nos predestinou a sermos conforme a
imagem de seu Filho, e esse é o horizonte final de toda vida cristã, tornar-se,
pouco a pouco, mais parecido com Jesus.
Voltando ao Evangelho, ainda há a parábola da rede lançada ao
mar, que recolhe peixes de todo tipo. É uma imagem que descreve com honestidade
a própria Igreja: uma comunidade onde convivem, até o fim dos tempos, pessoas
em diferentes estágios de conversão. Isso deveria nos livrar de qualquer
tentação de julgar precipitadamente quem está mais ou menos próximo de Deus. O
julgamento definitivo pertence somente a Ele.
E Jesus encerra com uma imagem bonita: o discípulo do Reino é
como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas. A fé
cristã não descarta a tradição recebida, mas também não teme a novidade que o
Espírito sempre suscita. Equilíbrio entre memória e criatividade, entre raiz e
caminho.
Queridos amigos, se hoje alguém nos perguntasse o que estamos
dispostos a vender para comprar o que realmente importa, o que responderíamos?
Talvez seja hora de rever prioridades, de pedir, como Salomão, um coração que
saiba discernir, e de redescobrir, com alegria e não com peso, o valor imenso
do Evangelho em nossa vida cotidiana.
Neste domingo – em que celebramos São Joaquim e Sant’Ana – rezemos
por nossos avós e por todos os idosos. A Igreja os valoriza e preocupa com a
sua inserção dentro da vida social! Deus os abençoe!
Que este domingo nos ajude a caminhar com esse olhar renovado,
confiando que Deus, fiel à sua promessa, continua chamando, justificando e
conduzindo cada um de nós à plenitude para a qual fomos criados.
Caminhai no Senhor.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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