Um novo olhar sobre a Mensagem do Papa Leão XIV para o VI Dia Mundial dos Avós e dos Idosos
Caros
irmãos e irmãs, há uma imagem na mensagem do Papa Leão XIV que me acompanha
desde que a li pela primeira vez, e que gostaria de partilhar convosco como
ponto de partida desta reflexão. O Santo Padre recorda que Deus traz os nossos
rostos gravados nas palmas das mãos, conforme lemos em Isaías 49,16. Gravados,
não escritos a lápis, não anotados numa lista que pode ser perdida ou esquecida
num canto de gaveta. Gravados na própria carne, de forma permanente, como uma
cicatriz que nunca se apaga.
Penso
em quantas vezes, ao longo dos anos de ministério episcopal em Maringá, ouvi de
idosos a mesma queixa silenciosa, ainda que raramente dita em voz alta: sinto
que já não sirvo para nada, sinto que estou apenas ocupando espaço. É a
angústia que o próprio Isaías descreve no capítulo 49, versículo 14, quando o
povo exclama que o Senhor o abandonou e se esqueceu dele. Uma angústia antiga
como a humanidade, mas que hoje se agrava numa sociedade que mede o valor das
pessoas pela sua utilidade produtiva.
O véu que cobre os rostos
Uma
das expressões mais fortes da mensagem papal é a imagem do véu que se estende
sobre a existência de muitos idosos, esbatendo as feições dos rostos e
relegando-os ao esquecimento. É uma imagem que interpela profundamente a nossa
cultura. Vivemos rodeados de telas e conexões, e ainda assim multiplicamos as
formas de esquecimento. Quantos avós esperam, semana após semana, por uma
visita que não chega. Quantos idosos em instituições de longa permanência têm
sua identidade reduzida, como bem observa o Papa, ao número de um leito ou ao
nome de uma doença.
Diante
disso, a Palavra de Deus não oferece apenas consolo espiritual, oferece um
projeto concreto de vida em comunidade. Se Deus não esquece ninguém, a Igreja e
a família são chamadas a ser sinal visível dessa memória divina. Não basta crer
que Deus se lembra de cada idoso, é preciso que essa certeza se traduza em
gestos, em visitas, em tempo dedicado, em presença real.
A fragilidade que abre caminhos
Gostaria
de destacar, nesta reflexão, um convite do Papa Leão XIV dirigido diretamente
aos idosos e que considero central para compreender o sentido cristão da
velhice: não tenhais medo da fragilidade. Numa primeira leitura, isso pode
parecer apenas palavra de consolo. Mas há algo mais profundo nesta afirmação. O
Santo Padre ensina que a fragilidade, quando aceita com fé, abre o coração ao
apoio mútuo e à invocação Daquele que pode oferecer o que nenhum poder humano
consegue garantir, a reconciliação dos corações e a paz verdadeira.
Isso
significa que a velhice, longe de ser um tempo de retirada da missão, pode se
tornar um tempo de missão renovada. O idoso que aceita sua fragilidade e a
oferece a Deus na oração se torna, muitas vezes sem perceber, um instrumento de
paz e de reconciliação para toda a família. Recordo aqui a palavra do profeta,
retomada pelo Papa: a vossa salvação está na conversão e em terdes calma, a
vossa força está em terdes confiança, conforme está escrito em Isaías 30,15. É
uma força que não se impõe pela arrogância, mas que se oferece pela serenidade
de quem já viveu o suficiente para saber o que realmente importa.
Renascer é sempre possível: Há
também, na mensagem do Papa, uma palavra de esperança para aqueles que chegam à
velhice sem terem tido, ao longo da vida, uma experiência profunda de fé. O
Santo Padre recorda que um homem e uma mulher podem renascer na velhice, à
maneira do diálogo de Jesus com Nicodemos em João 3,4-6. Isso nos ensina que
nunca é tarde para começar de novo com Deus. A velhice, com suas perguntas mais
urgentes sobre o sentido da vida, pode se tornar precisamente o momento
propício para essa nova nascença espiritual.
Aos que caminham nessa fase da vida, quero deixar uma palavra
simples e sincera: vosso valor não diminui com os anos, ele se aprofunda. E às
famílias e comunidades, deixo o convite renovado do Papa, para que retomemos o
hábito de visitar os avós, os idosos da família e aqueles que já não recebem
visita alguma, fazendo com que a promessa do profeta se torne encontro concreto
de ternura.
Que caminhemos todos no Senhor, confiando que nenhum rosto, por
mais enrugado ou esquecido que pareça aos olhos do mundo, está fora das mãos de
Deus.
+Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

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