Avançados em nosso itinerário neste oitavo mês do
calendário civil, o Evangelho nos conduz até Cesaréia de Filipe, onde Jesus faz
aos seus discípulos duas perguntas norteadoras, as quais, além de lançarem
luzes nas esteiras da vida em sociedade, também nos convida a olhar para dentro
da nossa própria comunidade eclesial. Ao ouvirmos a pergunta de Cristo, "Quem
dizem os homens ser o Filho do Homem?" e "E vós, quem dizeis
que eu sou?", somos chamados a examinar o estado interno da nossa
Igreja e as luzes que ela necessita para cumprir a sua missão evangelizadora.
Muitas vezes, na vida comunitária e nas nossas
pastorais, corremos o risco de cair no mesmo equívoco dos contemporâneos de
Jesus: ficamos apenas nas "opiniões", nos discursos e na estrutura
exterior. A Igreja corre constantemente o risco de se tornar uma instituição
burocrática, onde a gestão de eventos e o ativismo pastoral ocupam o lugar da
experiência viva com Cristo. Antes de qualquer ação evangelizadora para fora, a
comunidade cristã precisa responder a partir de dentro: Nós verdadeiramente conhecemos a Jesus, ou apenas sabemos coisas sobre
Ele?
Se a vida interna da Igreja não for alimentada por
uma profunda conversão pessoal e comunitária, a nossa evangelização perde a sua
força transformadora. O anúncio do Evangelho não pode ser a transmissão de uma
ideologia, mas a transbordante partilha de um encontro com o "Filho do
Deus vivo". Ao declarar a Simão: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra
edificarei a minha Igreja", Jesus estabelece o fundamento da unidade.
A primeira leitura (Is 22, 19-23) nos fala de Eliacim, a quem é dada a chave da
casa de Davi para governar com paternidade e estabilidade. Da mesma forma, o
ministério de Pedro e o serviço da hierarquia na Igreja existem para garantir a
comunhão e a fidelidade à verdade do Evangelho.
Para que a Igreja seja luz na evangelização, seus
ambientes internos precisam refletir essa rocha de unidade, a começar pela superação das polarizações: divisões,
disputas de poder, fofocas e rigidez sufocam a ação do Espírito Santo. Logo, é
necessário crescer no cultivo do
diálogo e da fraternidade: nossas paróquias e comunidades devem ser
espaços onde as pessoas se sintam acolhidas, ouvidas e amadas. Ao fim, cabe lembrar a promessa: "As portas
do inferno não prevalecerão contra ela." Isso deve nos encher de
esperança interior. A Igreja não pertence a este ou àquele grupo; a Igreja
pertence a Cristo.
O poder de "ligar e desligar" confiado a
Pedro e aos apóstolos é, antes de tudo, uma responsabilidade de misericórdia e
reconciliação. Quando os ambientes internos da Igreja vivem o perdão mútuo, a
transparência e a humildade, a mensagem da salvação ganha credibilidade perante
o mundo. Como nos lembra São Paulo na segunda leitura (Rm 11, 33-36), a sabedoria
e a misericórdia de Deus são insondáveis. A Igreja não retém as chaves para
fechar a porta aos necessitados, mas para abrir o Reino de Deus a toda a
humanidade.
Irmãos e irmãs, a reforma e a purificação dos
nossos ambientes internos não são um fim em si mesmas. Uma Igreja que olha
apenas para si mesma adoece. Se renovamos a nossa fé interiormente e
fortalecemos a rocha da nossa comunhão, é para que possamos cumprir com ardor o
nosso papel no meio da sociedade. Deste modo, a Igreja é chamada a ser, no mundo
contemporâneo: um farol de verdade
em meio ao relativismo e à confusão moral; um hospital de campanha que acolhe as feridas da humanidade
esquecida, promovendo a justiça e a dignidade humana; um sinal de esperança para as famílias, os jovens e os desamparados,
testemunhando que o mal, a dor e a morte não têm a última palavra.
Que esta celebração Eucarística nos renove por
dentro. Que, purificados na nossa fé e unidos em torno da rocha que é Cristo e
do ministério de Pedro, possamos sair das portas do templo prontos para
transformar a sociedade com o amor, a luz e a verdade do Evangelho. Amém.

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