Homilia para a Festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro, Ano A
Caros irmãos e irmãs, queridos amigos que caminham pela fé neste dia especial.Há uma pergunta que atravessa o coração humano em todos os tempos e em todos os lugares. Por que sofremos? Por que, no meio da caminhada, encontramos tantas cruzes? Não é uma pergunta nova. Já o povo de Israel, cansado no deserto, fazia essa pergunta a Deus e a Moisés, como conta a primeira leitura de hoje. E é justamente diante dessa pergunta antiga que a liturgia nos convida, nesta Festa da Exaltação da Santa Cruz, a levantar os olhos.
O Evangelho de João 3,13-17 nos coloca diante de uma cena silenciosa, mas decisiva. Jesus conversa à noite com Nicodemos, um homem culto, um mestre em Israel, que se aproxima cheio de perguntas. E é a ele que Jesus revela algo surpreendente. Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, também o Filho do Homem seria levantado. Quem olhasse para aquela serpente de bronze, ficava curado do veneno que o consumia. Quem olhar para Jesus levantado na cruz, crendo nele, recebe a vida eterna.
Percebam a delicadeza dessa comparação. Deus não retira do meio do povo o sinal daquilo que fere. Ele o transforma em remédio. A serpente que mordia se torna, pela ordem divina, sinal de cura. E a cruz, que era instrumento de morte e de vergonha no tempo de Jesus, se torna, pelo amor do Filho de Deus, sinal de salvação para toda a humanidade. Isso muda profundamente a maneira como devemos olhar para as próprias dificuldades da vida. Não é que Deus queira o sofrimento pelo sofrimento. É que Deus, no seu amor, sabe transformar até aquilo que nos fere em ocasião de crescimento e de cura, quando entregamos essa ferida a ele com fé.
João 3,16 traz a síntese de todo o Evangelho. Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna. Não existe frase mais repetida na fé cristã, e talvez por ser tão repetida, corremos o risco de não a sentir mais em profundidade. Convido cada um de vocês a parar hoje, ainda que por um breve instante, e repetir essa frase olhando para um crucifixo. Deus amou tanto o mundo. Não amou uma parte da humanidade. Não amou apenas os que já creem. Amou o mundo, com todas as suas contradições, com todas as suas dores, com todas as suas buscas ainda incertas.
A primeira leitura, tirada do Livro dos Números 21,4b-9, nos mostra um povo impaciente, murmurando contra Deus e contra Moisés. É bom reconhecer que a murmuração faz parte também da nossa experiência humana. Quantas vezes, no meio das dificuldades, também nós murmuramos contra Deus, contra a Igreja, contra a vida que não corresponde às nossas expectativas? O texto bíblico não esconde essa fragilidade do povo. Mas mostra, sobretudo, a misericórdia de Deus, que não abandona seu povo mesmo diante da infidelidade, e que encontra um caminho de cura através de Moisés.
Isso me leva a pensar na obediência cristã, tema que sempre me tocou profundamente. A obediência de Moisés, que faz exatamente o que Deus lhe pede, não é servidão. É liberdade. Moisés obedece porque confia, e essa confiança liberta o povo do veneno que os consumia. A obediência autêntica nunca diminui a pessoa. Ela a coloca em sintonia com um bem maior, que a própria pessoa muitas vezes não consegue ver por si só.
A segunda leitura, extraída da Carta aos Filipenses 2,6-11, apresenta o mesmo movimento em Jesus Cristo. Ele, que era Deus, não usou sua condição divina como privilégio. Esvaziou-se, tornou-se servo, humilhou-se até a morte de cruz. E por isso o Pai o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todo nome. Aqui está o coração da fé cristã. A verdadeira grandeza não está em subir, mas em descer para servir. Não está em se impor, mas em se entregar.
O Salmo responsorial, Salmo 77(78), reforça essa mesma dinâmica de fidelidade divina em resposta à fragilidade humana. O salmista lembra que o povo, mesmo depois de tantas vezes se afastar, sempre encontrava um Deus benigno e compassivo, que perdoava e não deixava sua ira se prolongar. Isso é consolador para todos nós, que também vivemos entre a fidelidade e a queda, entre a fé e a dúvida.
Diante desse conjunto de leituras, quero deixar um convite simples e concreto. Nesta semana, quando alguma dificuldade aparecer no seu caminho, no trabalho, na família, na saúde, procure fazer o que o povo do deserto foi convidado a fazer. Olhe para a cruz. Não como quem foge da dor, mas como quem confia que Deus pode transformar aquela dor em caminho de vida. E, se possível, faça também um pequeno gesto de conversão concreto, um pedido de perdão, uma reconciliação adiada, um gesto de generosidade que estava esquecido.
Termino como sempre gosto de terminar, com o convite que resume toda a minha caminhada de pastor. Caminhai no Senhor. É este o lema que escolhi para o meu ministério episcopal, e é este o convite que renovo a cada um de vocês nesta festa da Exaltação da Santa Cruz. Caminhemos, com os olhos voltados para o Crucificado, sabendo que ali, e somente ali, encontramos a força para atravessar qualquer deserto.
Que Deus os bendiga!
Comentários
Postar um comentário