O XXIV Domingo do Tempo Comum dá o passo decisivo que sustenta toda a conversão estrutural e eclesial sobre a qual meditávamos no domingo anterior. Se o XXIII Domingo nos desafiou a purificar o nosso organismo pastoral através da responsabilidade mútua, da transparência e da coragem da correção fraterna, a Palavra de Deus, hoje, nos lembra que nenhum método de gestão, nenhuma estrutura sinodal e nenhuma busca por um organismo eclesial “hígido” prevalecerão se não forem nutridos pela experiência ilimitada do perdão. A justiça da comunidade cristã não se fecha em si mesma; ela encontra sua raiz e seu ápice na misericórdia de Deus.
A pergunta do apóstolo Pedro no Evangelho de São Mateus – Mt 18,21-35 – expressa com clareza o limite da nossa lógica humana: "Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?" Para o pensamento rabínico e para a generosidade de qualquer um de nós, o número sete já representava a perfeição e o ápice da paciência. Contudo, Jesus responde desarmando as nossas calculadoras espirituais e institucionais: "Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete". O Senhor não propõe uma contagem matemática de 490 vezes, mas instaura um novo estilo de vida eclesial, no qual o perdão deixa de ser uma concessão extraordinária para se tornar o ar puro e restaurador que a comunidade respira.
A parábola do servo impiedoso ilustra a gravidade e a contradição de vivermos na Igreja sem nos deixarmos transformar por esse perdão ilimitado. O rei perdoa ao seu servo uma dívida colossal e impagável, equivalente a toneladas de ouro — uma imagem vívida do resgate infinito que Cristo realizou por nós na cruz. No entanto, aquele mesmo servo, ao sair da presença do rei, agarra o seu companheiro pelo pescoço, exigindo o pagamento imediato de uma quantia irrisória. O texto sagrado adverte que a incapacidade de perdoar o irmão não apenas destrói a convivência comunitária, mas bloqueia a eficácia da própria graça divina em nós. Não porque Deus retire o seu amor, mas porque um coração endurecido e contábil fecha suas portas à acolhida da misericórdia.
Para o dinamismo interno da Igreja e para suas diversas instâncias pastorais, este ensinamento oferece um critério fundamental de discernimento. Uma Igreja que deseja ser espaço de cura, acolhimento e profetismo no mundo não pode se transformar em um tribunal de cobranças mútuas ou de julgamentos implacáveis. Quando nos esquecemos da dívida infinita que nos foi perdoada por Deus, corremos o risco de aparelhar a fé com a rigidez dos burocratas e a amargura dos que não conhecem o amor gratuito. A verdadeira maturação das nossas relações interpessoais e pastorais exige que o perdão "70 x 7" seja a regra de ouro na vida de cada conselho, pastoral, movimento e liderança eclesial.
Além disso, ao testemunhar essa capacidade de perdoar sem limites, a Igreja oferece um remédio indispensável para as chagas da sociedade contemporânea. Em um mundo profundamente marcado pela cultura do ressentimento, pela polarização estéril e pelo desejo de vingança, a comunidade cristã torna-se um sinal profético ao demonstrar que a reconciliação é possível e que a memória das ofensas pode ser superada pela força do amor Redentor. Para além das barreiras sociais, culturais e institucionais, o perdão oferecido de coração limpa os canais de diálogo e devolve a paz aos ambientes em que a Igreja está inserida.
Ao celebrarmos esta Eucaristia somos convidados a apresentar no altar o rosto daqueles a quem ainda nos custa perdoar. Pedindo a libertação de toda mágoa, ressentimento ou contabilidade de erros passados, roguemos ao Senhor a graça de um coração remido, dócil e generoso, capaz de perdoar como fomos perdoados, para que a nossa vida e o nosso testemunho comunitário revelem ao mundo a face misericordiosa do Pai que tanto nos ama.

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